‘A gente recebe ameaças diárias em grupos de WhatsApp de Alter do Chão’, diz brigadista

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]]> Em coletiva de imprensa neste domingo (01), os brigadistas disseram que querem retomar os trabalhos o mais rápido possível, mas não é possível agora, pois estão em perigo. Os quatro brigadistas presos na última terça-feira (26), em Santarém, oeste do Pará, disseram em entrevista coletiva à imprensa neste domingo (01) que querem retomar seus trabalhos na brigada, mas que nesse momento estão em perigo e recebendo ameaças.
Daniel Gutierrez, Gustavo Fernandes, Marcelo Aron e João Victor Romano foram presos na operação Fogo do Sairé, apontados pela Polícia Civil como suspeitos de atearem fogo em área da APA Alter do Chão para obter benefícios financeiros por meio de doações.
Durante a coletiva, Daniel Gutierrez, líder da Brigada de Alter do Chão, relatou que o portão de sua casa foi arrombado. Nada foi levado do local, mas a segurança se mostrou vulnerável.
“O que a gente mais quer nesse momento é que a vida volte ao normal, é poder retomar os trabalhos na brigada, mas tá impossível agora. A gente está vivendo 12 horas de cada vez. Por conta das fake news espalhadas sobre a gente, nós estamos em perigo. O portão da minha casa foi arrombado. A gente recebe ameaças diárias em grupos de WhatsApp de Alter do Chão”, relatou Daniel Gutierrez.
Na semana em que os quatro brigadistas foram presos na operação “Fogo do Sairé”, a brigada teria a sede mudada da casa de Daniel Gutierrez para uma sala no centro comunitário da vila, ao lado da rádio comunitária.
“Nós falamos com o Júnior Sousa, presidente da comunidade, e ele aceitou, a nossa contrapartida seria a reforma da casa, a sede ia sair da minha casa. A gente tava muito feliz de ir para uma sede com os equipamentos que a gente conseguiu comprar, mas infelizmente a gente tá conversando com vocês ao invés de estar trabalhando”, destacou Daniel.
Operação Fogo do Sairé
Os quatro integrantes da Brigada de Alter do Chão foram presos preventivamente na terça-feira (26) em uma operação da Polícia Civil chamada Fogo do Sairé, que investiga a autoria das queimadas.
Os brigadistas, segundo a polícia, são suspeitos de atearem fogo na área para obterem benefícios financeiros por meio de doações. Segundo a polícia, eles receberam mais de R$ 300 mil em doações, mas só declararam R$ 100 mil. De acordo com o delegado de Polícia Civil José Humberto Melo Junior, os indícios que levaram à prisão dos quatro suspeitos vieram depois de escutas telefônicas feitas com autorização judicial.
Na sede do Projeto Saúde e Alegria, onde um dos brigadistas trabalha, a polícia apreendeu materiais como equipamentos e documentos.

Relações internacionais e campanhas
Sobre relações da Brigada com a WWF, Marcelo Aron, que comanda o Instituto Aquífero Alter do Chão, ONG que criou o projeto da brigada, disse que a WWF firmou com o instituto um contrato de parceria técnico-financeira em que foi repassado um valor de R$ 70 mil para compra de equipamentos para a brigada. “Essa é a única relação que a gente tem com organismo internacional (WWF). Tem também um documento acessório que é para cessão de imagens, inclusive parte delas já havia sido cedida, inclusive para diversos veículos da imprensa”, destacou.
A respeito das informações da Polícia Civil de que a brigada teria se beneficiado com recursos doados pelo ator Leonardo DiCaprio, Marcelo Aron afirmou que a brigada não recebeu nada. “Realmente a gente não recebeu nada do Leonardo DiCaprio. A gente realizou duas campanhas de arrecadação veiculadas nos nossos próprios meios de comunicação. A primeira foi para a realização do curso [de brigadistas], em julho”, contou.
Depois que a campanha encerrou e os brigadistas foram formados em agosto, a brigada passou a fazer uma campanha de arrecadação para equipar os brigadistas porque não havia nem equipamento de proteção individual. A brigada recebeu apoio, principalmente, de pessoas físicas.
“Foram doados valores desde muito pequenos até valores que nos surpreenderam. E a gente faz a gestão disso conforme manda a lei. Ou seja, a gente faz prestação de contas para a Receita Federal com assessoria de um escritório de contabilidade de Santarém e também presta contas a esses nossos financiadores”, disse Marcelo Aron.
Mandados de prisão, busca e apreensão
Marcelo Aron relatou que quando a polícia chegou na sua casa ainda era bem cedo. A esposa dele e seus filhos ainda estavam dormindo. No começo, ele pensou que era alguma coisa que estava acontecendo na rua e que os policiais estavam entrando para pedir algum auxílio. Como ele tinha recebido visita na noite anterior, perguntou se o portão estava aberto e os policias responderam que tinham arrombado porque tinham um mandado de busca e apreensão para cumprir.
“Foi estarrecedor pensar que a gente estava sendo suspeito de um crime ambiental, sendo que tudo o que a gente faz é para proteger o meio ambiente e não é de agora, é de muito tempo. É revoltante a gente ser preso por conta de uma coisa completamente oposta aquilo que a gente acredita”, disse Marcelo Aron.
Já Daniel Gutierrez disse que não acreditou quando foi levado à prisão, já que estava colaborando com as investigações desde o início.
“Até minha mulher falou para o meu vizinho que eu estava sendo levado e ele não acreditou. Ele disse eu vi a polícia aí, mas eles sempre estão aí com vocês por causa da brigada. A gente está sofrendo uma tremenda injustiça, a gente não deveria ter sido preso, a gente estava colaborando com as investigações desde o começo”, declarou Daniel Gutierrez.
Para Gustavo Fernandes, o que é excessivo e injusto é o que está acontecendo com os brigadistas desde que a Polícia Civil passou a tratá-los como suspeitos de crime ambiental.
“Pra mim, ter tido o cabelo raspado não é nada diante da injustiça que nós estamos sofrendo. É muito mais do excessivo, é inacreditável, é surreal a gente ser suspeito de uma coisa que não fez. Eu nunca tinha passado por isso, nunca tinha sido algemado e nem acusado de uma coisa que eu não fiz. Então, diante disso, tudo fica muito relevante”, disse.
João Victor disse que no ato da sua prisão não houve excesso por parte dos policiais e, quanto a ter a cabeça raspada na penitenciária de Santarém, foi um golpe duro.
“Eu acatei tudo o que pediram para que as coisas se resolvessem logo, mas quando cortaram o meu cabelo, a coisa que eu mais tive medo foi que a minha filha de 10 meses não me reconhecesse. Foi um golpe duro, mas ali a gente entendeu como um procedimento e a todo momento eu quis colaborar para que a verdade viesse à tona”, disse João Victor Pereira, com a voz embargada e olhos marejados.

Durante a coletiva, por orientação de suas defesas, os brigadistas não comentaram sobre as conversas telefônicas interceptadas pela polícia. Quando perguntados sobre frases atribuídas por eles nos áudios divulgados pela polícia civil, disseram que tudo será esclarecido no tempo certo e a inocência dos quatro será provada judicialmente. “Estão muito bem assessorados para provar que somos inocentes”, finalizou Daniel Gutierrez.

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