Disco da Gang 90 gera livro aliciante sobre onda de amor entre Alice Pink Pank e Júlio Barroso

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“Socorro!”. O pedido desesperado de Júlio Barroso foi feito segundos antes do desabamento do toldo no qual o artista se agarrava com todas as forças para evitar ter o corpo arremessado em queda livre rumo ao asfalto duro daquele quente 6 de junho de 1984.
O toldo poderia ter sido literalmente uma tábua de salvação quando o corpo de Júlio foi lançado involuntariamente da janela do apartamento em que o artista, enjoado, se desequilibrou após ter vomitado.
Não deu tempo. O impacto da batida do corpo no chão tirou instantaneamente de cena o cantor, compositor, guitarrista, jornalista, DJ e agitador cultural nascido em 18 de novembro de 1953, de origem carioca, vivência paulistana, alma nova-iorquina e espírito indomável.
Ali, naquele solo quente em que jazia o corpo já inerte de Júlio Barroso, começou a ser cortada a onda de amor do Brasil com a banda Gang 90 & Absurdettes, arquitetada por Júlio no embalo da New Wave que ele vira florescer em Nova York (EUA) em shows de bandas como Kid Creole and The Coconuts, assumida fonte de inspiração para a criação da Gang 90 em 1981.
Capa do livro ‘Gang 90 & Absurdettes – Essa tal de Gang 90 & Absurdettes’
Reprodução
A ascensão, o apogeu e a queda literal de Júlio Barroso, aos breves 30 anos, são romanceados pelo DJ e escritor holandês Jorn Konijn em um dos mais cativantes títulos da série O livro do disco.
O disco em foco é Essa tal de Gang 90 & Absurdettes, gravado entre 1982 e 1983, ano em que foi lançado o primeiro álbum da Gang 90. Com repertório que inclui sucessos da então emergente New Wave brasileira, como Telefone (Júlio Barroso, 1983) e Nosso louco amor (Herman Torres e Júlio Barroso, 1983), o álbum em si parece, após 36 anos, retrato tecnicamente desbotado do som dos anos 1980.
Apesar do reconhecido pioneirismo da Gang 90 na construção da cena pop roqueira daquela década, vanguardismo atestado com a defesa da música Perdidos na selva (Júlio Barroso, Márcio Vaccari e Guilherme Arantes, 1981) em festival exibido pela TV Globo em 1981, a banda de Júlio Barroso logo seria superada e progressivamente esquecida a partir da morte precoce do mentor.
Só que, neste volume da série O livro do disco, o álbum Essa tal de Gang 90 & Absurdettes é mero pretexto para o escritor Jorn Konijn contar história saborosa em que, apesar do co-protagonismo de Júlio Barroso, a personagem principal é Alice Vermeulen, a vocalista, compositora e tecladista holandesa conhecida como Alice Pink Pank, nome artístico adotado com inspiração na bailarina alemã Liesel Pink-Pank.
Konijn apresenta romance escrito com base em fatos reais, apurados em pesquisas e entrevistas com Alice e com os coadjuvantes de história improvável dessa artista que, entediada com os garotos holandeses, migra para o Brasil em 1980, no auge da juventude, não sem antes ter feito amizade com empresário e músicos de uma então iniciante banda irlandesa chamada U2.
Com maestria, Konijn entrelaça os ingredientes da vida real de Alice – música, amor, sexo, drogas, rock’n’roll, prazer, encantamento, desilusão – em narrativa aliciante que dá sentido ao título da coleção quando Alice conhece Júlio Barroso na então recém-inaugurada danceteria Pauliceia Desvairada. Alice se torna namorada de Júlio e uma das Absurdettes.
A onda de amor é cortada cerca de um ano depois quando o vício em álcool faz Júlio adotar conhecimento agressivo que resvala para práticas abusivas, inclusive sexuais.
Capa do álbum ‘Essa tal de Gang 90 & Absurdettes’, mote do mais recente título da série ‘O livro do disco’
Reprodução
Longe de maquiar a história, Konijn jamais se exime de contar a vida da Gang 90 como ela foi. E os integrantes da Gang viveram todos os clichês da indústria de música pop como o deslumbramento com o estrelato súbito, a pressão da gravadora (no caso, a RCA) por músicas de forte apelo comercial e a disputa de egos dentro da banda. Aliás, a narrativa deixa clara a desunião crescente entre o pragmático músico Herman Torres e os demais integrantes, mais favoráveis ao clima de anarquia que reinava em grupo que, naquela época, nem sempre primava pelo profissionalismo.
Konijn narra o percurso da banda na criação do único álbum feito com o mentor da Gang sem jamais tirar o foco da relação de Alice e Júlio. E do romance de Alice com Lobão, personagem que entra no meio da história para adicionar o ciúme à narrativa. No caso, com o adicional de Júlio e Lobão terem sido amigos e parceiros na composição de Noite e dia (1983), música do primeiro álbum da Gang.
Sempre contada sob a ótica de Alice Pink Pank, que integrou a banda Lobão e os Ronaldos até o relacionamento com o líder do grupo se deteriorar e precipitar a saída da artista, a história termina de forma inevitavelmente melancólica. A morte de Júlio tirou a força motora da Gang 90 – que continuou sob a liderança de Taciana Barros e lançou álbuns como Rosas e tigres, gravado em 1984 com letras de Júlio e lançado 1985 – desnorteou Alice.
Após sair da banda de Lobão, a artista tentou carreira solo na WEA, gravadora que, após lançar (comercialmente) mal-sucedido compacto de Alice produzido por Liminha, decidiu apostar as fichas na banda de Paula Toller, Kid Abelha.
Alice ainda tentou um posto de VJ na então idealizada MTV do Brasil. Sem resposta para o teste, Alice Pink Pank voltou para a Holanda e se juntou a uma banda local, da qual logo saiu por não detectar ali o desvario contagiante da Pauliceia e, sobretudo, de Júlio Barroso, parceiro de um louco amor que marcou época na vida da artista e na história do pop brasileiro, como tão bem conta Jorn Konijn em essencial título da série O livro do disco. (Cotação: * * * * *)

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