‘Eu pensava que merecia’: Como a ioga ajudou mulher a superar estupro, trauma e depressão

Leo Lib

]]> Aos três anos de idade, Natasha Noel viu a mãe cometer suicídio; aos sete, foi estuprada. Os traumas geraram falta de confiança imensa e um quadro de depressão clínica. Hoje, ela pratica ioga que diz proporcionar força física e mental. Natasha acredita que praticar ioga a ajudou a lidar com situações de estresse

A jornada de Natasha Noel em busca de cura começou aos 21 anos de idade. O namorado dela havia terminado a relação e saído de sua vida.
Era o momento de repensar seu caos interior, mas suas cicatrizes eram profundas.
Aos três anos e meio de idade, ela viu a mãe atear fogo em si própria. Seu pai, que sofria de esquizofrenia, foi enviado para uma casa de detenção, e ela passou a viver com os padrinhos.
Aos sete anos, Natasha foi estuprada. O abusador a encurralou e atacou — mas ela não contou a ninguém.
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Ela também não disse nada depois, quando foi abusada e tocada de forma inadequada.
“Minha infância foi marcada pela dor e por uma culpa muito grande. Eu sempre me culpava”, conta ela à BBC. “Eu amava ser vítima, porque era algo tão próximo à dor. Eu pensava que merecia aquilo”.
Depois de anos sofrendo com inseguranças sobre o próprio corpo, ela encontrou a liberdade na dança. Assim, achou uma forma de se expressar de forma mais confiante.
Ela treinou jazz, balé e dança contemporânea em um instituto local de Mumbai, maior cidade da Índia.
Mas uma lesão no joelho colocou um fim aos treinos. Sua dislexia, combinada ao bullying que encarava na escola, também a afastou dos estudos em um período crucial.
Quando conseguiu se formar, sua mãe adotiva sugeriu que ela seguisse carreira como professora, para garantir certa estabilidade.
Natasha conta que sua nova família cuidava dela da melhor forma que podia, mas nada era suficiente. “O problema era eu, porque eu não estava pronta para essa aceitação e nunca me abria”.
“E eu definitivamente não estava pronta para um emprego como professora”.
Depois de um término de namoro, surgiu o desejo de mudança.
“Eu sabia que tinha de melhorar”, diz ela.
Natasha lida com depressão e ansiedade há muitos anos

Preenchendo o vazio
Foi uma fase que ensinou a ela uma grande lição: “você precisa cuidar da sua saúde mental, porque ninguém mais vai fazer isso”.
Natasha percebeu que estava lidando com anos de ódio a si mesma e de problemas com sua imagem corporal. “A depressão, para mim, era sobre comportamentos extremos. Eu comia até não conseguir mais respirar e depois vomitava, ou então me forçava a passar fome. Ou eu dormia o dia inteiro, ou simplesmente não dormia”.
Transtornos do tipo costumam ser negligenciados na Índia, devido ao estigma social e à falta de cuidados médicos. Estima-se que um quarto da população mundial sofrerá com algum transtorno ao longo da vida, segundo a Organização Mundial de Saúde — e a depressão está entre os quadros mais críticos.
Natasha havia passado por terapia antes, quando mais nova. Dessa vez, entretanto, ela também optou por uma série de técnicas para autocuidado. A lista incluía um caderno para anotar momentos pelos quais se sentia grata, que a ajudava a ter mais perspectiva, e um caderno de metas que a encorajavam a agir.
“Minha depressão e minha ansiedade me motivaram a sair dali”, conta ela.
“Na pior fase, eu definia apenas metas menores para cada dia, como escovar meu cabelo ou sair de casa para uma caminhada de cinco minutos”.
Nos dias em que não conseguia dar conta disso, ela decidia ser mais suave consigo mesma.
“Eu aprendi a dizer a mim mesma que está tudo bem em falhar e tentar de novo amanhã. Eu tive de praticar o amor próprio até que se tornasse o único caminho”.
Essa foi a maior diferença na forma como lidava com diversos assuntos. “Eu me lembro de quando meu terapeuta me perguntava como eu estava, e eu respondia ‘eu estou bem, e você?’.”
“Eu estava tão acostumada a dar amor aos outros, mas nunca a mim mesma”, ela lembra.
Cura por meio da ioga
A meditação tornou-se uma grande parte da jornada de Natasha para lidar com depressão e ansiedade.
Ao longo dos anos, ela recorreu também à ioga para melhorar sua força física e mental.
“Depois da minha lesão, eu não pude mais dançar nem fazer qualquer atividade física. Mas comecei a ver mulheres do mundo todo mostrando poses de ioga nas redes sociais e pensei no quanto era incrível”, diz ela.
Ela queria chegar lá, um passo de cada vez.
Esse caminho ia desde as posturas físicas (asanas) até as formas de controle da respiração (pranayama), para chegar à atenção plena.
“Praticar ioga ajuda a me manter sã. O processo foi longo, mas o progresso passou a ser encorajador”.
Depois de cinco anos, ela se vê em um lugar melhor.
“Hoje, não importa o que aconteça, eu pratico ioga nas primeiras horas do meu dia e tiro alguns minutos para meditar”.
Isso tornou os dias de estresse mais tranquilos e ajudou em sua prática do amor próprio, como ela nunca havia conseguido antes.
Natasha decidiu transformar isso em um estilo de vida e passou pelo treinamento para se tornar uma instrutora de ioga.

Aos 27 anos de idade, ela ainda tem dias ruins, mas aprendeu a continuar.
Natasha é agora uma professora de ioga, defensora da conscientização sobre saúde mental e influenciadora digital. Ela explica que sua jornada começou com a autoaceitação.
“As palavras que você diz sobre mim, eu já pensei sobre mim mesma e foi muito pior”, diz seu perfil no Instagram.
Natasha Noel fala sobre sua jornada, da infância dolorosa ao perdão

Ela promove a aceitação corporal para mais de 245 mil seguidores, enquanto os inspira a fazer ioga. O perfil na rede social também reflete muitas de suas experiências pessoais.
“Eu repetia constantemente esse ‘modo vítima’ na minha cabeça. Mas me policiava sobre isso, porque eu mesma estava me puxando para baixo”.
Como influenciadora, ela continua a ser chamada por trolls de “mau caráter”, “indigna”, “fácil” ou “não tão bonita”.
Entretanto, Natasha não é mais acometida pela ansiedade. “Eu mudei minha perspectiva e trabalhei duro para melhorar”.
“Eu levei 20 anos para chegar aqui e ainda não terminei. Ainda estou me curando, um passo de cada vez”.

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