Toxoplasmose: Gatos não são os maiores vilões

Bocudo

Na internet, vídeos de gatinhos são quase terapêuticos – e sempre aumentam a audiência. Mas, no cotidiano, bichanos costumam ver sua reputação manchada diante de alguns vários preconceitos. De todos eles, é certo que o pior costuma ser associar essas criaturinhas à principal forma de transmissão da toxoplasmose – quando, na verdade, a história é bem outra.

“Das formas de contágio humano, a maior parte ocorre pelo consumo de carne mal cozida, de legumes e frutas mal lavados ou mesmo pela ingestão de água não tratada”, expõe a veterinária Lívia Chimati Fatini. A razão de a enfermidade ter ficado conhecida como “doença do gato”, prossegue ela, se deve ao fato do protozoário Toxoplasma gondii só ser capaz de completar seu ciclo em felinos – isto é, apenas animais desta espécie são capazes de eliminar ovinhos do parasita pelas fezes.

A ingrata associação pode até ter sua razão de ser, mas, dita assim, faz ressoar uma série de preconceitos que não se sustentam. “Para começar é importante lembrar que apenas gatos que tenham sido contaminados pelo protozoário Toxoplasma gondii que podem transmitir o parasita pelas fezes. E esse grupo é minoritário”, reforça.

Na maior parte das vezes, se são animais adultos e sadios, eles não apresentam nenhum tipo de sintoma. Se forem novinhos, com sistema imunológico imaturo, ou velhinhos, sendo imunodeficientes, a doença pode se manifestar pela perda de apetite, dificuldade respiratória, mucosas amarelas, febre, prostração, desconforto abdominal, cegueira e alterações de comportamento – a depender de qual parte do organismo foi comprometida pelo parasita.

“De maneira geral, quando o gato entra e contato com o protozoário,  o sistema imunológico se defende bem contra as ações do parasita, sem manifestar sintomas da doença e o animal se torna imune”, explica Lívia. Dessa forma, se infectado, o animal vai eliminar esses ovinhos junto das fezes durante duas ou três semanas – “e não pelo resto da vida”, reforça.

Um outro detalhe é que os ovos do parasita só se tornam infectantes depois de dois ou três dias, quando passa pelo processo de esporulação. “Então, manter a caixinha de areia constantemente limpa é uma forma de evitar o contágio”, sugere Lívia.

Importante dizer que os gatos costumam se tornar hospedeiros do Toxoplasma gondii ao consumirem alimentos contaminados. “Por isso, é importante não dar para eles carne crua”, sugere Lívia. No caso dos bichanos criados em lugares onde podem caçar roedores ou aves, a profissional sugere o uso de coleira com guizo, dificultando a captura desses animais – que podem ter um cisto do parasita em seu tecido muscular.

Em humanos,  doença pode passar desapercebida

No mais das vezes, o sistema imunológico humano se defende bem do protozoário que causa a toxoplasmose – de forma que a doença passa, muitas vezes, desapercebida. Quando há sintomas, eles podem se confundir ao de um resfriado ou a uma dor de garganta, explica a pediatra e infectologista Aline Almeida Bentes.
A médica lembra que, em algumas pessoas, pode haver manifestação ocular, como perda parcial da visão lateral. “Dependendo de onde a lesão ocorre, as perdas podem ser maiores ou menores. Nesses casos, é importante fazer tratamento medicamentoso”, diz.

Quando a vítima do Toxoplasma gondii tem sistema imunológico comprometido, os danos são maiores. “Pessoas em tratamento quimioterápico, que fizeram cirurgia de transplante de órgãos ou portadores de HIV, por exemplo, ficam mais vulneráveis ao protozoário”, explica Aline. “Nestes casos, podem acontecer crises compulsivas, se o sistema nervoso central for afetado, complicações oculares, auditivas, confusão mental… O sintoma vai depender da região do corpo que for atingida”.

No caso de mulheres grávidas, há risco para a saúde do bebê. “Quando nos primeiros meses, as chances de contágio do feto são menores, mas se ocorrer, as consequências são mais graves, levando à má formação e até mesmo ao aborto”, expõe. “Se a gravidez estiver mais avançada quando houver a infecção, as chances de se passar a toxoplasmose para o bebê são maiores, mas os efeitos tendem a ser mais brandos”, completa. Nesse caso, o recém-nascido pode até não apresentar sintomas inicialmente, mas ter perda auditiva ou de visão, por exemplo, ao longo dos primeiros anos de vida. Por conta disso, é fundamental que gestantes e bebês façam acompanhamento médico.

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