História da cadeira brasileira poderá ser revista em museu belo-horizontino

A residência de paredes vermelhas na esquina das ruas Gonçalves Dias e Sergipe, que hoje pertence ao Conjunto Urbano Praça da Liberdade, ficou conhecida, nos anos 1920, como Salão Vivacqua. Na época, o casarão recebia saraus literários com presenças de ilustres, como os escritores Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade. Quase um século e muita história depois, agora seu destino será outro. A construção de 1909, projetada pelo arquiteto Edgard Nascentes Coelho, é a futura sede do Museu da Cadeira Brasileira (MuC).

E, numa espécie de prévia, o casarão sedia, até 8 de junho, a exposição “A Cadeira e a Poesia”, que integra a programação do BH Design Festival. A ação faz parte do processo de implementação do museu, que será dirigido pelo colecionador João Caixeta, 55, também curador.

João explica que a ideia da criação desse espaço dedicado ao objeto surgiu em 2006, a partir da aquisição das primeiras peças do seu acervo, que hoje contém cerca de cem exemplares – muitos, inclusive, já foram vistos há dois anos, em uma mostra no Museu de Artes e Ofícios. Mas a proposta de ocupar o espaço do Salão Vivacqua veio oficialmente em 2016, após uma reunião com o Conselho Municipal de Cultura de BH.

“Agora, o próximo passo é buscar aporte financeiro para a nossa ideia prosseguir”, afirma o curador do museu, sobre a importância da exposição, que também é uma homenagem à família Vivacqua, que residiu no edifício entre os anos de 1920 a 1930. “Queremos associar a história dessa família e levantar outras por meio do objeto ‘cadeira’”, disse Caixeta. Dessa forma, ele pretende “satisfazer a curiosidade das pessoas em relação ao museu, que vai narrar a trajetória do móvel desde a chegada dos portugueses ao Brasil. Porém, a contemporaneidade também será celebrada, tanto que o recorte da mostra que está em cartaz são cinco exemplares de cadeiras atuais assinadas somente por designers mineiros.

Acervo. Desde que teve a iniciativa de montar o acervo que vai estar disponível para visitação pública, Caixeta vem adquirindo novas unidades do móvel, algumas por meio de doações. “É um acervo vivo. As pessoas que doam, que também são colecionadoras, têm uma compreensão da vontade de eternizar esse momento”, diz.

A ideia de iniciar a coleção surgiu da experiência como um dos sócios da AB Vintage. “Várias cadeiras passavam pela loja e iam embora. Algumas peças, nunca mais vi outras iguais. Eu percebia que havia raridade expressa nesses objetos e sentia pena quando iam embora. Comecei a reservar e comprar algumas peças, já pensando futuramente em uma exposição”, relembra ele.

A memória afetiva do objeto também está nas lembranças com o seu avô, que sempre se sentava na mesma cadeira e passava longas tardes divagando sobre a vida. “Quando os amigos chegavam, sentavam-se em torno dele e da cadeira”, relembra. Para o colecionador, a cadeira desempenha uma função fundamental no nosso cotidiano e “nos acompanha durante toda a nossa vida. Ela expressa uma função social e ganha uma personalidade. Além disso, tem um sentido de ser prótese do humano: estamos sempre ligados à cadeira durante todos os dias da nossa vida”, justifica.

Fato é que a cadeira, para Caixeta, é um móvel que não tem previsão de encerramento no sentido criativo. “Sempre haverá criadores de cadeira pensando em novos materiais, estilos e design”. Talvez isso seja também o impulso que justifique ainda mais a possibilidade de o museu existir enquanto espaço físico. Hoje, parte do acervo pode ser acessado pelo site muc.org.br. O projeto prevê também a instalação de um centro de pesquisas, que estabelecerá constantes ações de produção científica em torno de seu tema central.

Exposição

“A Cadeira e a Poesia”. Visitação de segunda a sábado, das 10h às 18h. Outro destaque do circuito BH Design Festival é a apresentação do salão Vivacqua como futuras instalações do Museu da Cadeira Brasileira – MuC (r. Gonçalves Dias, 1.218, Funcionários)

Quanto. A programação é gratuita e terá bate-papos a respeito da profunda relação do design com as raízes históricas do espaço urbano de BH e da cultura mineira. Até o próximo dia 8. A inscrição pode ser feita pelo site www.sympla.com.br/muc.

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