Crenças aliadas ao tratamento

Não há uma estatística oficial, mas estima-se que, no Brasil, em torno de 14% das escolas médicas disponham da disciplina espiritualidade em suas grades curriculares de forma prática, legalizada, na graduação, optativa ou obrigatória. Esse percentual fica em torno de 80% nas faculdades norte-americanas e em 59% nas do Reino Unido.

A Universidade de Taubaté (Unitau) foi pioneira em introduzir na grade curricular a disciplina que aborda questões de espiritualidade e religiosidade e como elas podem influenciar a saúde.

A disciplina teve início em 2011, primeiramente como optativa, e, a partir de 2016, foi incorporada à grade curricular como eletiva, oferecida aos alunos de medicina do quarto semestre.

A mudança ocorreu devido à grande procura dos estudantes: as 20 vagas eram sempre preenchidas, e havia excedentes.

“Levei essa proposta ao Departamento de Medicina da Unitau por vários motivos. Primeiramente, para que os alunos entendam que o ser humano é mais que suas partes e deve ser avaliado de forma integral, e que é preciso desenvolver um olhar além da doença, ou seja para a pessoa”, conta o neuropediatra Alexandre Serafim, coordenador da disciplina.

O segundo motivo, diz Serafim, “é o fato de a ciência estar comprovando os benefícios da espiritualidade e da religiosidade sobre a qualidade de vida das pessoas e o consequente efeito sobre a saúde física e mental. E, por último, para que os alunos possam ter a visão de uma medicina mais holística e humanizada”, diz.

No curso, os alunos aprendem como o corpo responde a um estado emocional equilibrado ou desequilibrado. “Mostramos como a fisiologia corporal se apresenta quando experimenta estados como gratidão e perdão e, em contrapartida, mágoa, ira e raiva. E também como a prece, a meditação e a frequência religiosa podem trazer benefícios físicos e mentais, em curto e longo prazos”, comenta Serafim.

O médico ressalta que a ciência vem pesquisando esse tema e isso é positivo, pois os professores precisam “dar comprovações aos alunos”. “Na prática, os alunos aprendem como abordar as questões espirituais dos pacientes”, ressalta.

No entanto, a visão médica é ainda muito cartesiana e materialista. “Os estudantes ficam focados em um órgão ou sistema orgânico e esquecem que por trás deles há um dono. Essa disciplina permite aos futuros médicos o entendimento integral do ser humano e os reais fatores de adoecimento, pois um câncer pode vir de um estado de mágoa, que também requer tratamento”, diz Serafim.

E, por fim, a disciplina leva à autodescoberta. “Tem sido gratificante saber que os futuros médicos têm um poderoso recurso para tratar seus pacientes, resgatando a dignidade e fortalecendo os laços entre médico e paciente, que se afrouxaram com o tempo e com as tecnologias”, finaliza Serafim.

Respeito com as crenças do paciente

A academia, aos poucos, está se rendendo à realidade de que o ser humano é muito mais que um corpo. Em 2017, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense introduziu a disciplina medicina e espiritualidade.

O urologista José Genilson Ribeiro, 60, professor de urologia na instituição e chefe do departamento de cirurgia especializada, diz que a relação médico-paciente é de fundamental importância. “Em meu consultório, eu sempre ficava atento para não tratar apenas as doenças dos pacientes, mas me preocupava com o binômio mente/corpo e, consequentemente, com os aspectos emocionais relacionados à gênese da doença”.

Frequentando um centro espírita há 33 anos, foi na universidade que ele conseguiu convergir o espiritismo e a ciência. “No entanto, pelo fato de a universidade ser laica, eu não falo sobre espiritismo ou religião. Busco ensinar meus alunos sobre a abrangência da espiritualidade, a relação do indivíduo consigo próprio e com o Criador, orientando-os a olhar para si, a entender seu processo de vida, o significado de se estar em uma faculdade de medicina e a valorização da relação médico-paciente”, diz Ribeiro.

Núcleo oferece terapias energéticas

No curso de medicina da Universidade Federal Fluminense, os alunos aprendem que “a espiritualidade é uma ferramenta fabulosa, que pode abraçar os valores espirituais do paciente para ajudar no tratamento de diversas doenças”, analisa o médico José Genilson Ribeiro.

A disciplina é optativa e está na 15ª turma, com uma média de 15 alunos, e está aberta não apenas para os estudantes de medicina. “O que tem motivado os estudantes é o viés do autoconhecimento e a possibilidade de ver o paciente de forma mais abrangente, e não apenas como um doente. Os professores são todos médicos”, diz Ribeiro.

Foi criado ainda o Núcleo de Estudos em Saúde, Medicina e Espiritualidade, projeto de extensão vinculado à disciplina, em que pesquisadores e professores de outras áreas, não necessariamente médicos, podem participar.

“Mostramos aos alunos que o paciente precisa ter uma posição mais ativa e que ele pode buscar dentro de si, seja pela fé ou por meio de valores, uma transformação interior para o enfrentamento da sua doença. Estamos cada vez mais, lenta e silenciosamente, desenvolvendo a espiritualidade, porque acreditamos que essa será a medicina do futuro”, finaliza o médico.

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