Alfabeto da vida, tabela periódica completa 150 anos em 2019

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Pouco menos de um século após Antoine Lavoisier (1743-1794) lançar o Tratado Elementar de Química, em 1789, e estabelecer os parâmetros para a química moderna, uma série de cientistas vinha tentando encontrar a melhor forma de organizar os elementos conhecidos – até então, 63 –, quando, em 1869, o russo Dmitri Mendeleev (1834-1907), professor da Universidade de São Petersburgo, chegou à primeira versão do modelo que é usado até hoje.

Há quem diga que Mendeleev gostava muito de jogar paciência. Um dia, teria pegado seu baralho e escrito nas cartas o nome de cada elemento, sua massa atômica e suas propriedades físicas e químicas. Inspirado pelo jogo, distribuiu as cartas na mesa e as dispôs colocando na mesma coluna elementos de propriedades parecidas (como ficam as cartas de mesmo naipe no jogo) e em ordem crescente conforme o valor das massas. Nascia, assim, há 150 anos, o alfabeto da química e, por sua vez, da vida. É por isso que a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou 2019 o ano internacional da tabela periódica dos elementos químicos.

O professor de química do Colégio Técnico da UFMG Alfredo Luis Mateus explica por que a tabela pode ser considerada o alfabeto da vida. “É difícil acreditar que a enorme variedade de substâncias que encontramos todos os dias são formadas por um número pequeno de elementos. Todos os objetos, todos os alimentos, remédios, produtos, tudo é formado pelos cerca de 90 elementos naturais. E é isso que a tabela periódica nos mostra. Em um pequeno espaço de papel, estão todos os elementos que compõem tudo que existe no universo”, afirma.

A partir da combinação dos atuais 118 elementos descritos na tabela (92 deles encontrados na natureza, o restante sintetizado em laboratório), são conhecidas hoje perto de 150 milhões de substâncias e outras tantas são descobertas, diariamente, em todo o mundo. O trunfo de Mendeleev foi justamente ter proposto um modelo que previa elementos que ainda não haviam sido descobertos, inclusive indicando com certa precisão suas propriedades.

Isso, por si só, proporcionou uma série de avanços para a ciência, como observa Luciano Faria, professor de química do Centro Universitário Newton Paiva. “Somente a partir da organização dos elementos dessa forma passou-se a buscar por novos. E também a criá-los. Isso é um passo enorme. E os cientistas continuam buscando criar elementos artificiais que possam significar novas possibilidades para o futuro”, pontua.

Onipresente

É difícil encontrar um laboratório de química – e, muitas vezes, também de outras ciências, como física e biologia – que não tenha uma tabela periódica exposta. “Os químicos não vivem sem a tabela. Ela apresenta dados importantes para uma série de cálculos. O mais importante talvez seja a massa atômica, que permite que nós saibamos quantos átomos ou moléculas estão em uma certa massa de substância. Como os químicos usam suas balanças o tempo todo, antes de pesar alguma coisa é comum se consultar a tabela para fazer os cálculos”, esclarece o professor Alfredo Luis Mateus.

Coautor de livros de química voltados para crianças, o professor atua na divulgação científica também fazendo palestras, mostras e peças de teatro. Ele ressalta que a ciência é muito mais do que um conjunto de fatos, como os que estão descritos na tabela periódica, e para entendê-la não há mistério, basta “virar a chavinha”.

“A ciência é um modo de pensar e um modo de investigar o que existe à sua volta. Então, eu diria que as pessoas só precisam entrar nesse modo de olhar, de procurar respostas, que é a característica central da ciência. As pessoas acham que ela está distante quando não sabem como funciona. Mas quando você coloca esses ‘óculos’ científicos, tudo ao redor se transforma em perguntas, por que o céu é azul, por que a água ferve, por que o prego enferruja…”, conclui.

Paixão pendurada na parede

Filho de químico, já nas primeiras aulas do científico – como era chamado o ensino médio –, lá no ano de 1953, Jorn Seixas, 82, se apaixonou pela tabela periódica. Naquela época, estabeleceu uma meta para si mesmo: um dia, faria uma coleção, montaria um mostruário com exemplares de todos aqueles elementos.

Vinte anos depois, em 1973, já formado médico, o senhor Seixas finalmente daria início à empreitada, montando uma versão em três dimensões, de acrílico, da tabela concebida por Dmitri Mendeleev. Pendurada na parede de sua casa desde então, o quadro conta com cerca de 70 dos 92 elementos encontrados na natureza – isso porque ele decidiu não armazenar os gases, que acabam por se dissipar.

“A química é o meu principal hobby e acho que devemos ter muitos. Eu mesmo gosto de química, mas também de física, de astronomia, de música clássica, de viajar”, pondera o senhor Seixas. “Comecei a coleção pelos elementos mais comuns, como cobre e estanho, depois passei para os mais raros e mais caros. Tive também que pensar em qual seria a melhor forma de apresentá-los. Escolhi a pirâmide, que é misteriosa e apaixona as pessoas”, conta.

Ao longo de quase cinco décadas, ele foi adquirindo cada elemento conforme tinha a oportunidade. O índio, por exemplo, foi comprado em uma viagem à Dinamarca. “O rênio é um metal caro e raro, mas eu já o encomendei para a minha filha que mora na Alemanha, e ela vai trazer para mim”, diz.

Senhor Seixas ainda pretende adquirir cerca de cinco elementos. “É um prazer que eu tenho. Quando comecei a tabela, tinha que pensar nos meus quatro filhos, no dinheiro que eu ia gastar e que podia ser investido neles. Até por isso cheguei a montar um laboratório para fundir as peças de ouro que eu costumava ganhar. Mas hoje, com os filhos criados, posso me dedicar mais tranquilamente”, afirma.

Celebração é oportunidade para refletir sobre a ciência

Ao proclamar 2019 como o Ano Internacional da Tabela Periódica dos Elementos Químicos, a Organização das Nações Unidas (ONU) tinha em vista celebrar a ferramenta em si, mas também levantar outras discussões. Entre elas, o papel das mulheres na pesquisa científica, as tendências e as perspectivas mundiais sobre a ciência para o desenvolvimento sustentável, além dos impactos sociais e econômicos dessa área.

Professora do Departamento de Química da UFMG e coordenadora do laboratório de combustíveis da universidade, Vanya Pasa considera as proposições muito pertinentes. “A proposição da tabela em si já não é mérito de uma pessoa sozinha, já havia todo um pensamento nesse sentido, o Mendeleev foi mais um a contribuir nesse sentido. E desde então muita gente também ajudou a aprimorá-la e a desenvolver a química. Entre essas pessoas, obviamente, há também muitas mulheres”, afirma.

A professora observa que não só no passado a mulher foi vista como coadjuvante, mas até hoje, muitas vezes, as cientistas são encaradas apenas como ajudantes, e essa é uma oportunidade para se refletir sobre isso. “É como se a voz masculina fosse mais ouvida. Uma mulher, para conseguir reconhecimento, precisa fazer muito mais do que um homem faz. Precisamos discutir sobre o motivo de isso acontecer e mudar essa situação”, pontua.

Valorizar o conhecimento

Outro ponto importante de se ter um ano dedicado à tabela periódica tem a ver com a possibilidade de reagir aos diversos ataques que o conhecimento científico vem sofrendo nos últimos tempos. “A humanidade está num processo evolutivo, e sem conhecimento não avançamos nesse caminho. O Brasil é respeitado em várias áreas das ciências, e se não investirmos mais nesses campos, não vamos conseguir ter tecnologia”, ressalta.

Como cientista, o professor de química do Centro Universitário Newton Paiva Luciano Faria diz fazer uma mea-culpa diante de movimentos que questionam a validade da ciência como o antivacina e o terraplanismo. “Me sinto um tanto quanto culpado porque acho que o cientista precisa sair do laboratório, divulgar seus achados, justificar à comunidade o dinheiro investido nas pesquisas”, diz.

Momentos como o das comemorações da criação da tabela periódica são importantes, de acordo como professor, para fazer justamente isso. “Celebrar essas grandes conquistas é uma forma de mostrar à sociedade que tudo o que fazemos no laboratório não é para o nosso próprio bem, mas para o bem comum. Fazer esse tipo de divulgação é importantíssimo”, conclui.

Curiosidades sobre a tabela periódica dos elementos químicos

Em expansão

Os quatro últimos elementos da tabela periódica foram validados em novembro de 2016: Nihonium (Nh), Moscovio (Mc), Téneso (Ts) e Oganesson (Og), mas já existem indícios de que o elemento 119 e o elemento 120 estejam prontos para serem reconhecidos.

Contribuição feminina

Além de Mendeleev, muitos nomes masculinos são associados à tabela periódica. Nem sempre, no entanto, as mulheres, que também deram importantes contribuições para o desenvolvimento da tabela e consequente avanço da ciência, são lembradas.

Vencedora do Nobel

Entre os principais nomes femininos está o da polonesa Marie Curie (1867-1934). Ela descobriu o polônio e o rádio em 1897. Ela tornou-se a primeira mulher ganhar o Prêmio Nobel e foi laureada duas vezes.

Para “ver de perto”

O MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal tem uma exposição fixa que homenageia a tabela periódica. A atração é interativa e formada por tubos metálicos que projetam no chão os elementos químicos e uma animação de Mendeleev conta a história de sua criação.

Matéria

Ainda no espaço, há a exposição Mesa dos Átomos. Numa tela, o visitante pode ver as características, as aplicações e as imagens dos compostos químicos formados a partir da união dos elementos.

Pint of Science

Conhecimento difundido

Nascido em 2013 em Londres, o Pint of Science é um evento que propõe a saída dos pesquisadores do ambiente acadêmico para conversar sobre ciência com as pessoas.

Minas e a tabela

A nova edição acontece no próximo dia 22, em várias cidades do mundo, e BH recebe uma conversa sobre a tabela e as riquezas minerais do Estado. Às 19h, no MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal (praça da Liberdade, s/n, Funcionários).

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