Por que o papa beijou os pés desses quatro líderes sul-sudaneses

Como se resolve uma guerra civil que já dura seis anos e deixou 300 mil mortos e 3,5 milhões de refugiados? Um retiro talvez seja uma boa ideia. Essa foi a proposta que o arcebispo de Canterbury e primaz da Comunhão Anglicana, Justin Welby, fez ao Papa Francisco para lidar com a crise no Sudão do Sul. Os dois líderes cristãos convidaram os membros do novo governo transicional do país para um retiro na Casa Santa Marta, a residência de Francisco, no Vaticano.

A guerra civil no Sudão do Sul se iniciou em 2013, no mesmo ano em que Francisco foi eleito papa – e dois anos após a independência do país. De um lado do conflito, estava o governo do presidente Salva Kiir Mayardit e, do outro, os apoiadores do ex-vice-presidente Riek Machar. Kiir e Machar são de grupos étnicos diferentes – respectivamente Dinka e Nuer, o maior e o segundo maior do país.

Desde o início do conflito, cerca de 300 mil pessoas morreram e 3,5 milhões se tornaram refugiadas, das quais 1,5 milhão em países vizinhos. Isso fez com que o Sudão do Sul se tornasse em 2018 o terceiro país do mundo em número de habitantes refugiados, atrás apenas da Síria e do Afeganistão.

Em setembro do ano passado, um acordo de paz entre os dois lados da guerra foi assinado em Adis Abeba, na Etiópia – mas a consolidação efetiva da paz no país ainda é um processo por ocorrer. O acordo, que se chama Acordo Revitalizado sobre a Resolução do Conflito na República do Sudão do Sul (R-ARCSS, na sigla em inglês), prevê um período transicional, que terá início em 12 de maio.

O retiro

É para contribuir com esse processo que Welby e Francisco apostaram em convidar os membros do novo governo, que inclui os dois lados do conflito, para um retiro de recorte ecumênico e diplomático. 60% dos sul-sudaneses são cristãos, a maior parte deles católicos, anglicanos e presbiterianos – John Chalmers, ex-moderador da Assembleia Geral da Igreja da Escócia, que é presbiteriana, também se envolveu na proposta do retiro.

Participaram do retiro:

– Salva Kiir Mayardit, presidente do Sudão do Sul desde a sua independência, que permanece no cargo durante o período transicional,

– Riek Machar, que foi vice-presidente entre 2011 e 2013 e primeiro-vice-presidente em 2016. Líder da oposição, ele assumirá novamente a primeira-vice-presidência no período transicional.

– Taban Deng Gai, atual primeiro-vice-presidente (desde 2016), que será um dos quatro vice-presidentes simultâneos do período de transição – cada um deles supervisionará um conjunto de ministérios.

– Rebecca Nyandeng de Mabior, conselheira da presidência entre 2011 e 2013 e viúva de John Garang de Mabior, que foi vice-presidente do Sudão e presidiu o governo autônomo do Sudão do Sul antes de sua independência. Ela também será vice-presidente no governo de transição.

– Membros do Conselho das Igrejas do Sudão do Sul, que reúne sete denominações cristãs.

O retiro aconteceu nesta quarta e quinta, 10 e 11 de abril. Os pregadores foram o arcebispo católico de Gulu, na Uganda, John Baptist Odama, e o padre jesuíta nigeriano Agbonkhianmeghe Orobator, presidente da Conferência dos Superiores Maiores da África e de Madagascar. Em uma de suas pregações, Orobator refletiu sobre o hino nacional do país.

O papa interveio no final do encontro, com uma última pregação. Francisco recordou que “paz” foi a primeira palavra que Jesus dirigiu aos apóstolos após a ressurreição e disse que a finalidade do retiro é a de “estar juntos diante de Deus e discernir a sua vontade; refletir sobre a própria vida e sobre a missão comum que ele nos confia; tornar-se conscientes da enorme corresponsabilidade para o presente e o futuro do povo sul-sudanês; e empenhar-se, revigorados e reconciliados, pela construção da nação de vocês”. O papa ainda expressou o desejo de visitar o país em breve, ao lado de Welby e Chambers.

Confiar na espiritualidade, do ponto de vista de Francisco, não significa apostar na oração de maneira mágica, como se a solução para problemas tão complexos fosse cair do céu.

Francisco concluiu sua pregação e o retiro como um todo com uma oração e, ao final, falou de improviso: “Peço a vocês como irmão: permaneçam em paz. Peço isso de todo coração. Vamos em frente. Haverá vários problemas, mas não se assustem: vão em frente e os resolvam. Vocês deram início a um processo: que termine bem. Entre vocês dois [dirigindo-se a Kiir e Machar] haverá brigas, sim, mas que seja dentro do gabinete. Diante do povo, tenham as mãos unidas. Assim, de simples cidadãos, vocês se tornarão pais da nação. Permitam-me que eu peça isso de coração, com os meus sentimentos mais profundos”.

Foi aí que veio o gesto mais expressivo do encontro – e um dos mais fortes do pontificado de Francisco: o papa se aproximou de Kiir, Machar, Deng e Mabior e se ajoelhou para beijar os pés de cada um deles. Confira:

Ao fim do encontro, cada participante foi presenteado com uma bíblia, assinada por Francisco, Welby e Chalmers, com a inscrição: “Busque aquilo que une. Supere aquilo que divide”.

Precedentes

Não é a primeira vez que Francisco recorre a experiências de recolhimento e oração para ajudar a resolver problemas políticos ou eclesiásticos. Em 2014, ele convidou os presidentes da Palestina e de Israel, Mahmoud Abbas e Shimon Peres, para um encontro de oração e reflexão nos Jardins Vaticanos. Em 2017, visitou a Colômbia para ajudar a consolidar um processo de reconciliação nacional, com o cessar-fogo das FARC. No ano passado, convocou os bispos chilenos para um retiro no Vaticano sobre a crise de abuso sexual na Igreja do país. Mais recentemente, a cúpula sobre abuso sexual de menores que ocorreu em Roma em fevereiro foi marcada por uma celebração penitencial.

Confiar na espiritualidade, do ponto de vista de Francisco, não significa apostar na oração de maneira mágica, como se a solução para problemas tão complexos fosse cair do céu. Francisco é jesuíta e dessa forma está ligado à tradição dos exercícios espirituais, uma forma de oração em que o orante se detém e se demora a olhar para a própria vida, em sua concretude, atento àquilo que fala mais alto dentro de si. “Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear internamente as coisas”, dizia o fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola (1491-1556).

Francisco entende que a experiência do recolhimento e da meditação – “sentir e saborear internamente as coisas” – ajuda a enxergar com mais profundidade a realidade e, assim, a se colocar a serviço daqueles que precisam.

Nesse sentido, Francisco entende que a experiência do recolhimento e da meditação – “sentir e saborear internamente as coisas” – ajuda a enxergar com mais profundidade a realidade e, assim, a se colocar a serviço daqueles que precisam. Um trecho do teólogo ortodoxo Olivier Clément (1921-2009) resume bem essa relação: “Quanto mais nos tornamos homens de oração, tanto mais nos tornamos homens de responsabilidade. A oração não liberta do empenhamento no mundo: torna-o ainda mais responsável. Nada é mais responsável do que a oração. Isso deve ser realmente compreendido e feito compreender aos jovens. A oração não é uma diversão, não é uma espécie de droga para o domingo; ela introduz no mistério do Pai, no poder do Espírito Santo, em torno de um rosto que nos revela todos os rostos, e nos faz finalmente servidores de todos os rostos”.

O gesto de beijar os pés, por sua vez, não é de todo inédito na história recente do papado. Em 1975, o Papa Paulo VI, canonizado por Francisco em 2018, saudou dessa forma o metropolita ortodoxo Melitão da Calcedônia, enviado a Roma pelo patriarca ecumênico Demétrio I. Naquele ano, a reconciliação entre a Igreja Católica e a Ortodoxa completava 10 anos e Melitão anunciou que uma comissão pan-ortodoxa havia sido formada para tratar do diálogo com a Igreja Católica. Até a metade do século passado, porém, o costume era que o papa fosse cumprimentado com um beijo nos pés. Graças a Deus, as coisas mudam.

 

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