Brumadinho corre risco de surto de doenças, alerta estudo

A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) divulgou um estudo sobre o risco de surto de doenças como leptospirose, febre amarela, dengue e esquistossomose em Brumadinho (MG). A pesquisa foi feita a partir de informações de saúde do município, sistemas de dados públicos e levantamentos sobre tragédias passadas, como as enchentes de Santa Catarina, em 2008, e o rompimento da barragem de Mariana, em 2015.

Christovam Barcellos, pesquisador titular do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Lis/Icict) da Fiocruz, afirma que catástrofes ambientais geralmente causam surtos de doenças infecciosas. “Desastres desse tipo afetam todo o ambiente. Por causa do desequilíbrio muito rápido que acontece nos ecossistemas com perda de biodiversidade, existe a possibilidade do surgimento de uma quantidade grande de vetores de doenças, como mosquitos, principalmente em Minas Gerais que está úmida pela chuva abundante, e quente, por causa do verão.”

Os moradores que perderam suas casas ficam ainda mais expostos às doenças. Por isso, diz Barcellos, é importante evitar qualquer contato com lama e água contaminada nas primeiras semanas após tragédia.

A longo prazo, há um agravamento de enfermidades crônicas, como hipertensão arterial, insuficiência renal, diabetes, tuberculose e Aids. Isso porque pessoas com essas enfermidades dependem de medicamentos de uso contínuo e de procedimentos como hemodiálise, mas acabam encontrando dificuldade de acesso aos serviços de saúde locais.

“O pior é que a área das populações afetadas é muito maior do que essa que se vê nas fotografias. Ela abrange dezenas de quilômetros ao longo do Rio Paraopeba e todas essas pessoas podem adoecer ou ter suas doenças agravadas”, alerta o pesquisador.

Tragédia em Brumadinho  (Foto: Presidência da República/Divulgação)

Roedores, caramujos e intoxicação
Outro grande problema é a falta de coleta de lixo, que favorece o aumento da população de roedores e, consequentemente, a transmissão de leptospirose. A doença também é favorecida em áreas em que o sistema de coleta e tratamento de esgoto está suspenso ou prejudicado com o rompimento da barragem. Com isso, moradores podem estar improvisando maneiras de escoar o esgoto, contaminando ainda mais os rios e tornando o ambiente propício aos caramujos que transmitem a esquistossomose.

Além do esgoto, a lama de rejeitos que avança sobre os rios pode causar intoxicação por metais pesados, fazendo com que as pessoas tenham náuseas, vômitos e diarreia. Ou problemas respiratórios, se entrarem em contato com os contaminantes da lama seca que se espalham pelo ar.

A situação é preocupante também porque o sistema de abastecimento de água foi afetado. “É urgente melhorar o sistema chamado Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano. Não basta só analisar coliformes fecais, turbidez e pH. Todos os metais pesados presentes na água precisam ser examinados porque eles podem estar acima dos limites”, enfatiza Barcellos.

Além das doenças do corpo
Ao perder familiares, amigos, economias e muitas vezes a própria casa, as pessoas também podem desenvolver doenças mentais, como ansiedade, depressão e transtorno do estresse pós-traumático.

Segundo Barcellos, há ainda um aumento nos casos de acidente vascular cerebral em desastres como o de Brumadinho. “Duas coisas acontecem ao mesmo tempo: o estresse que eleva a pressão arterial e causa problemas cardiológicos. E a perda de medicamentos e do contato com o sistema de saúde. Vimos uma epidemia de AVC depois das enchentes de Santa Catarina, do rompimento da barragem em Mariana e do acidente nuclear de Fukushima, no Japão.”

O pesquisador diz ainda que há a preocupação de que a população fique desassistida quando o processo de busca e identificação de corpos for encerrado, a imprensa diminuir a cobertura da tragédia e as equipes de socorro se retirarem do local. “A conta fica para o sistema de saúde, que vai se responsabilizar pelo longo prazo. Esse longo prazo pode durar um, dois, até cinco anos de impacto. Toda vez que chover forte, essa lama vai ser removida e jogada no rio Paraopeba. Isso representa uma ameaça permanente para essa população.”

Expedição conta com biólogos, advogados e geólogos (Foto: Gaspar Nóbrega/ SOS Mata Atlântica.)

Reação
Barcellos sugere duas medidas fundamentais para prevenir doenças em Brumadinho. A primeira é a construção emergencial de sistemas de saneamento básico. “Quem recebe água do rio Paraopeba precisa de outra fonte de água. É necessário também tratar o esgoto das comunidades que dependem desse rio, fazer campanha de vacinação contra a febre amarela e manter vigilância de doenças como diarreia, leishmaniose e leptospirose, e de outras que podem surgir.”

E a segunda cabe aos próprios moradores. “As pessoas devem evitar o consumo de água e de alimentos que venham dessa região. E exigir das autoridades públicas os cuidados necessários com a saúde”, conclui Barcellos.

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