Pesquisa aponta que homens e macacos têm cérebros quase iguais

Análise do córtex pré-frontal de pessoas e chimpanzés mostra que a região funciona de forma muito semelhante nas duas espécies, exceto em uma área relacionada à tomada de decisões e à execução de várias tarefas simultaneamente

Paloma Oliveto

Há tantas semelhanças genéticas e comportamentais que, às vezes, assusta. Na região cerebral responsável por pensamentos complexos e pela linguagem, por pouco o ser humano não é idêntico aos macacos, seus primos mais próximos na escala evolutiva. Um estudo da Universidade de Oxford que investigou os padrões de 12 redes de neurônios em homens e outros primatas constatou que em 11 delas quase não existem diferenças. Contudo, a atividade de uma área específica parece exclusiva do Homo sapiens. Trata-se da parte responsável por duas características que, tudo indica, são unicamente humanas: o planejamento estratégico para tomada de decisões e a capacidade de executar várias tarefas ao mesmo tempo.

“Essas comparações são muito importantes porque, quanto mais compreendemos a mente animal, mais entendemos sobre nós mesmos”, afirma Franz-Xaver Neubert, neuropsicólogo da Universidade de Oxford e principal autor do estudo. Há mais de uma década, Neubert investiga a forma como os neurônios relacionados a funções cognitivas e de linguagem se comportam nos primatas e, segundo ele, é impressionante como há poucas variações. “O perfil de conectividade dos neurônios é basicamente similar em homens e macacos, com algumas diferenças discretas”, afirma.

Com isso, algumas questões evolutivas começam a ser respondidas, segundo o neurocientista. Uma delas é a teoria da mente, ou a habilidade humana de inferir os pensamentos e as crenças dos outros. Experiências comportamentais jamais conseguiram comprovar que os outros primatas compartilham essa capacidade que, entre outras coisas, está relacionada à empatia. Por isso, acredita-se que essa é uma característica unicamente humana. A equipe de Neubert, contudo, conseguiu mostrar que áreas cerebrais associadas com o processamento de rostos e de outros estímulos sociais se ativam de maneira semelhante em homens em macacos. “Algumas teorias dão conta de que essa habilidade começou a se desenvolver apenas quando o ancestral das espécies já havia se diversificado. Mas nossos resultados mostram que esse processo já existia no precursor comum”, exemplifica.

A área do cérebro que interessa a pesquisa de Neubert é a região ventrolateral do córtex pré-frontal (veja infografia ao lado), onde ocorrem as comunicações neuronais envolvidas na maior parte das funções sofisticadas de cognição e linguagem. Estudos de imagem indicam que apenas os primatas possuem essa estrutura anatômica, que também está associada a problemas psiquiátricos, como dependência química e compulsão. Derrames e doenças que afetam essa região resultam em problemas de fala e compreensão oral e escrita, por isso sabe-se que ela tem importância para a linguagem. “Com o aumento de casos de AVC e da incidência de males como o Alzheimer, estudar a região é básico se quisermos encontrar boas terapias”, diz Neubert, ressaltando outro potencial de seu estudo.

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