De A a Z

Você precisa da E, do Complexo B, da C, de Zinco, e muito mais. Entenda por que o consumo de vitaminas virou uma febre que escapa do racional

Carolina Samorano

Elas levam a fama de serem capazes de prevenir câncer, doenças cardiovasculares e até neurológicas, como a esclerose múltipla e o Parkinson. Teriam poder de aumentar a disposição, regular o sistema imunológico e até hidratar o corpo. Se o seu cabelo cai ou se as unhas andam quebradiças, é porque elas estão faltando. As vitaminas são poderosas, sim senhor. Dizem os especialistas que, sem elas, o corpo não seria capaz de cumprir as funções vitais. Inclusive, daí vem o nome, dado pelo bioquímico polonês Casimir Funk, em 1912: vita, do latim, vida.

No organismo, elas assumem a função de biocatalisadores, com as enzimas e os hormônios. E é graças a esse grupo de moléculas que qualquer reação bioquímica ocorre no organismo, aproveitando a energia dos alimentos, por exemplo, acelerando ou freando o tempo das reações e por aí vai. Algumas delas já ganharam até status de remédio. “No fim do século passado, por exemplo, controlou-se uma doença chamada beribéri (causadora de inchaço nas pernas, vômito, confusão mental) com a vitamina B1, assim como se controlou o escorbuto com a vitamina C”, lembra o médico nutrólogo Edison Saraiva. A descoberta da eficácia da B1 rendeu ao médico holandês Christiaan Eijkam um Prêmio Nobel em 1929.

Quase um século depois, a febre em torno dos tais nutrientes segue firme. Qualquer alimento industrializado é “enriquecido” com uma verdadeira sopa de letrinhas. Mas, se antigamente havia um consenso em torno do uso de suplementos vitamínicos, hoje pesquisadores e médicos são um pouco mais reticentes. Vitaminas seguem sendo elementos essenciais à manutenção da vida, mas há que se observar as doses e os efeitos adversos.

Tomar ou não tomar um comprimido de vitamina C por dia, como ensinou a sua avó? Comprar ou não aqueles potes de multivitamínicos? Quem não quer resolver todas as carências alimentares e prevenir uma infinidade de doenças tomando apenas um comprimido por dia? As discussões são amplas, a unanimidade, impossível. Nesta edição, a Revista se dedica a entender o universo das vitaminas e por que elas despertam tanta curiosidade entre cientistas, médicos e pacientes. As conclusões, como quase tudo relacionado à ciência, são provisórias.

A dieta do comprimido
A primeira vez que a bancária Tainara Martins, 27 anos, se viu às voltas com potes e potes de vitaminas, fitoterápicos e micronutrientes foi há dois anos. Antes disso, ela diz, “gostava de tomar algumas coisas”, mas nada que causasse espanto em quem conhece sua rotina.

Determinada a eliminar alguns quilos e a ter hábitos de vida mais saudáveis, Tainara foi procurar uma nutricionista ortomolecular como último recurso depois de várias dietas frustradas. “Cheguei lá e fui logo falando que eu não tinha a menor ideia do que era aquilo, e que eu queria conhecer antes de começar a fazer. Nunca tinha pensado em fazer essas dietas em que se toma um monte de ‘remédio’”, lembra. Na verdade, a dieta combinava alimentação equilibrada e doses de colágeno, ômega 3, extrato de alho e vitaminas (quatro por dia).

Dois anos depois de iniciado o tratamento, Tainara superou com folga os objetivos iniciais. Como benefício extra, ela viu pele e cabelo melhorarem, além da disposição — nem sem lembra quando foi a última vez que ficou doente. Os médicos, porém, não compartilham desse entusiasmo. “Eles dizem que não tem comprovação científica. Mas, lá fora, a medicina ortomolecular é bem mais aceita”, comenta.

Foi do exterior que ela trouxe o último arsenal de vitaminas e outros nutrientes em cápsulas. Como lá o mercado de vitaminas é bem mais aquecido, a nutricionista de Tainara passou uma lista de comprimidos para que ela procurasse, alguns inexistentes por aqui ou bem mais caros. A mala voltou recheada. “Fiquei até com medo que me parassem no aeroporto”, conta.

Os multivitamínicos não funcionam
Pelo menos é isso que têm sugerido os estudos em torno dos tais comprimidos que prometem nutrição de “A a Zinco” nos últimos anos. Em dezembro do ano passado, a revista médica Annals of Internal Medicine publicou um editorial polêmico sugerindo que as pessoas parem de jogar dinheiro fora comprando os tais suplementos multivitamínicos, vendidos aos montes em farmácias (e até em mercados, nos Estados Unidos). Intitulado “Já chega: Parem de desperdiçar dinheiro em vitaminas e suplementos minerais”, o texto se baseia em três artigos publicados na edição que buscaram entender o papel dos tais suplementos na prevenção e na progressão de doenças crônicas.

O primeiro foi uma revisão de três amostragens com suplementos multivitamínicos e 24 com vitaminas isoladas ou combinadas a uma segunda, totalizando mais de 400 mil pacientes. A conclusão foi de que não há evidência alguma sobre benefícios dos suplementos em qualquer causa de morte, câncer ou doença cardiovascular. O segundo foi um estudo que avaliou a eficácia de um multivitamínico por dia para prevenir o declínio cognitivo em homens com mais 65 anos — foram 5.947 no total. Depois de 12 anos de acompanhamento, observaram que não houve diferença significativa entre o grupo dos multivitaminas e o grupo do placebo. O último estudo se dedicou aos potenciais benefícios de altas dosagens de multivitamínicos em 1.708 homens e mulheres sobreviventes de um infarto do miocárdio. Quase cinco anos depois, não houve diferença notável na recorrência de problemas cardiovasculares.

“Apesar das evidências de que não há benefício algum e até possíveis riscos, o uso de suplementos multivitamínicos aumentou entre adultos nos Estados Unidos de cerca de 30%, entre 1988 e 1994, para 39%, entre 2003 e 2006”, diz o editorial, assinado pelos médicos responsáveis pela publicação. A crescente indústria americana de vitaminas já bateu a casa dos US$ 28 bilhões (dados de 2010).

A publicação caiu como uma bomba no meio científico. John Michael Gaziano, pesquisador no Brigham and Women’s Hospital, em Boston, e co-autor do estudo com suplementação vitamínica em homens acima dos 65 anos, não gostou do “recorte” dado pela revista. “Nesta edição do Annals, publicamos apenas os resultados na função cognitiva. Resultados anteriores, publicados há um ano, mostraram redução no câncer e na catarata”, disse Gaziano à Revista, por e-mail. No passado, ele foi o responsável por desmistificar a vitamina E. “Agora, todos tomam vitamina D, então vamos estudá-la”, garantiu.

Vitamina D — nova fronteira da medicina?

Há cerca de três anos, a servidora pública aposentada Queli Soares, de 45 anos, recebeu um diagnóstico que tinha tudo para mudar sua vida para sempre: esclerose múltipla, uma doença até hoje tida pela medicina como crônica, incurável e degenerativa, geralmente associada a cadeiras de roda, andadores, camas, respiradores e toda sorte de aparatos médicos usados para prolongar a vida do paciente.

Nos meses seguintes, a servidora sentiu o peso do diagnóstico. Foi aposentada por invalidez, perdeu os movimentos do braço esquerdo, deixou de andar, parou de sorrir. Mais tarde, mudou-se para uma casa térrea, onde não precisasse subir escadas, pois as quedas eram cada vez mais frequentes. Por fim, ficou de cama. “Eu ia morrer”, conta, com os olhos marejados. A esclerose múltipla possui uma escala de avaliação do estado do paciente que varia de 1 a 10, chamada EDSS. O primeiro estágio é o exame sem nenhuma anormalidade e o último, a morte pela doença.

Com um ano e meio de tratamento, Queli se encontrava no oitavo estágio. Tinha surtos da doença a cada 45 dias, dos quais se recuperava com a chamada pulsoterapia — administração de altas doses de corticoide por via intravenosa. E também com o uso de interferon, medicamento supressor do sistema imunológico e um dos mais caros da indústria farmacêutica. Trata-se de um remédio “biológico”, obtido a partir de células vivas do organismo. Como é de altíssimo custo, o inferferon é fornecido gratuitamente pelo governo.

Sem opções, Queli sofria com as reações adversas (dores de cabeça, calafrios, febre, anemia e alteração da pressão arterial), mas não abria mão das doses do medicamento. Além das ampolas do interferon, eram cerca de 35 comprimidos todos os dias para controlar as dores causadas pela esclerose. “Eu cheguei a um ponto em que eu não aguentava mais. Jamais teria coragem de tirar a minha vida, mas tinha vontade de morrer”, diz.

Até que, pesquisando sobre a doença, Queli chegou à vitamina D, substância que, no Brasil, tem sido usada de forma pioneira há mais de uma década no tratamento de esclerose múltipla e outras doenças neurológicas no consultório do neurologista Cícero Galli Coimbra, da Escola Paulista de Medicina, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O médico tem recebidos colegas e pacientes do mundo inteiro curiosos com o método que, de tão simples, causa estranheza.

O tratamento consiste, basicamente, em ministrar altas dosagens de vitamina D. Os pacientes em tratamento tomam milhares de unidades da substância por dia, de acordo com uma avaliação individualizada. Queli toma 120 mil. A maioria dos suplementados vitamínicos vendidos em farmácias no Brasil não têm mais do que 200 unidades.

A vitamina D seria muito mais importante do que se imaginava. Estaria ligada não apenas à maior absorção de cálcio — por isso, combate a osteoporose —, mas a inúmeras outras funções no organismo. Segundo Cícero Galli, exatamente 229. A conclusão é reforçada por alguns estudos. Em 2010, pesquisadores da Universidade de Oxford, na Inglaterra, sequenciaram o código genético humano a fim de averiguar que regiões do DNA apresentavam receptores para a substância. Encontraram 2.776, o que prova, segundo Andreas Heger, um dos coordenadores do trabalho, a grande influência que ela teria na manutenção da saúde.

“Múltiplas linhas de evidências sugerem que a vitamina D pode ser importante no risco e na progressão da esclerose múltipla”, disse à Revista Alberto Ascherio, professor de epidemiologia e nutrição em Harvard e coordenador de estudo publicado em janeiro passado. “Em 2006, nós relatamos que adultos saudáveis com hipovitaminose D têm mais risco de ter a doença, um resultado que foi confirmado por estudos posteriores”, continua. No entanto, ele segue cético quanto ao tratamento com altas dosagens. “Elas podem causar hipercalcemia e serem bastante perigosas. Além disso, não existe evidência de que superdosagem seja benéfica em indivíduos com esclerose”, pondera.

Não é a opinião compartilhada pelo médico e deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP), que diz que, depois de décadas afastado dos consultórios para se dedicar à vida pública, retornou à prática clínica para se dedicar aos estudos com a vitamina, que ele garante, é a “nova fronteira da medicina”. “Acredito que a vitamina D tenha sido tratada de maneira muito secundária até hoje”, analisa.

A maioria dos médicos neurologistas, no entanto, é reticente quanto ao tratamento idealizado pelo doutor Cícero na Unifesp. O argumento é que o protocolo ainda não tem comprovação científica, o que Galli e Feldman justificam dizendo que o procedimento exigido é antiético. “O que se pede é um teste chamado duplo-cego, em que você dá vitamina D para alguns pacientes, placebo para outros, e compara os resultados. Se eu sei que a vitamina D pode beneficiar muito os portadores de esclerose múltipla, não posso dar placebo a meus pacientes”, argumenta Feldman.

A primeira vez que Queli entrou andando no consultório do neurologista com quem fazia acompanhamento em Brasília, depois de começar a se tratar com os comprimidos de vitamina D, ouviu uma bronca. “Ele me viu andando, de pé na frente dele. E, mesmo assim, levantou da cadeira, gritou comigo, me chamou de louca e disse que eu deveria procurar um psiquiatra”, lembra, emocionada. Ela conta que, 30 dias depois do primeiro comprimido de vitamina D, já conseguia ficar em pé. Com 45 dias, pegou pela primeira vez a neta, hoje com um ano, no colo.

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