Os anos 1980 fizeram Brasília ser conhecida como a capital do rock

Esse período ficou marcado na história da cidade como uma das épocas mais efervescentes da cultura local. O Correio faz um recorte musical dessa época e de seus artistas
Gabriel de Sá
Ao deixar a adolescência, Brasília começava a procurar seu lugar no mundo. Livre dos percalços e da insegurança que acometem os mais jovens, a nova adulta, com seus vinte e poucos anos, queria mostrar do que era capaz. A cena cultural construída nas primeiras duas décadas de vida, fruto dos ideais revolucionários difundidos na Universidade de Brasília (UnB) e da miscigenação que brotava das embaixadas e dos milhares de migrantes que se instalaram por aqui, entrava em ebulição.
Iniciava-se a década de 1980 e a mente da geração Coca-Cola começava a fervilhar. É neste ambiente, propício a experimentações, repleto de espaços amplos e céu aberto, que a juventude brasiliense inaugura uma revolução sonora entre monumentos e pilotis. Munidos de um enorme senso de coletividade e assombrados com a convulsão musical que toma o mundo, garotos e garotas descem de seus blocos e decidem, eles mesmos, fazer música com as armas que têm.
A cidade que revelou Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, gerou também Escola de Escândalo, Marciano Sodomita, Pôr-do-Sol, Banda 69, Elite Sofisticada, Detrito Federal e outras centenas de bandas. “Na metade da década, no auge, deve ter chegado a umas 300”, calcula o pesquisador e jornalista Olímpio Cruz Neto. Brasília não se tornou a capital do rock por ter exportado meia dúzia de grupos para o país, e sim por ter oferecido terreno para que o gênero de múltiplos rostos conseguisse tomar forma. “Os punks foram os que chegaram às grandes gravadoras. Mas a cidade tinha muito mais na época”, observa Militão Ricardo, da Banda 69.Entre militares, políticos, professores e funcionários públicos, uma nova classe se insurgia — a dos artistas. Nas boates, bares e porões, no Plano Piloto e nas cidades do DF, ecoava o som cru e amador dos aspirantes a músicos. As árvores, os pontos de ônibus e murais de escola eram alvo certo dos cartazes que anunciavam os pequenos concertos, que ocorriam onde quer que houvesse uma tomada. Roqueiros e fãs eram quase sempre as mesmas pessoas. “O trabalho autoral dava público”, recorda o guitarrista Fernando Jatobá, da Capacetes do Céu. “E o público cresceu com as bandas”.
“Se não fosse Brasília, nada disso teria acontecido”, defende Philippe Seabra, vocalista da Plebe. “A gente não tinha nada a perder. Entramos com tudo e mudamos a cara da música popular brasileira”. De acordo com ele, a contribuição das bandas da cidade para a cena roqueira nacional passa pela lucidez, o senso crítico e o embasamento estético. “Foi uma coisa extremamente espontânea, sem fórmulas. Aquilo que aconteceu não vai acontecer de novo”, acredita.
1980
13 de junho

O Mel da Terra foi o primeiro grupo pop de Brasília. Apesar de pertencer a uma geração “pré-rock”, caminhou lado a lado com os roqueiros da cidade na década de ouro. Em entrevista no dia em que fizeram seu primeiro show como protagonistas, no Teatro Garagem do Sesc, os integrantes citaram algumas de suas influências musicais: Beatles, Rolling Stones, Roberto Carlos, Deep Purple e Led Zeppelin. “Por mais influências que possamos ter recebido de músicos americanos ou ingleses, convivemos é com a realidade brasileira, de onde absorvemos a base para nosso trabalho”, disse Paulinho Mattos.7 de julho
O Concerto Cabeças reúne mais de mil pessoas na Rampa Acústica do Parque da Cidade para sessões de música e poesia, tendo como atrações as bandas Fina Flor, Pró, Musikantiga, Clodo, Climério e Clésio, Banda Cerrado e Bumba meu boi de Seu Teodoro.1981
23 de agosto

Anunciado como o primeiro grande concerto do gênero na cidade, o Rock Cerrado recebe nomes de peso: Pepeu Gomes, Baby Consuelo, Raul Seixas e Walter Franco, entre outros. No dia seguinte, o Correio relata que mais de 20 mil jovens curtiram o festival, realizado no Estádio Pelezão. “A polícia temia uma repetição da famosa ‘Rockonha’, o que não ocorreu”, diz o texto na capa da edição. Em outra matéria, é dito que a festa ficou conhecida pela “rapaziada” como “Rock do Embalo”.
1983
9 de abril

“Banda 69 abre a Temporada de Rock”, diz o título da matéria sobre o quarteto formado por Murilo Carvalho, Militão Ricardo, Rodrigo Lopes e Marcelo Carvalho. O texto destaca a forte ligação dos rapazes com o som dos Beatles e conta sobre um show do grupo em Goiânia, ao lado do Aborto Elétrico, “um extinto conjunto punk que andou agitando a cidade há dois anos”. “Foi o pessoal do Aborto quem abriu o caminho para nós e outros grupos”, relata Murilo. “Nos próximos finais de semana, estarão no palco da ABO a Plebe Rude, o XXX, o Capital Inicial e a Legião Urbana”, arremata o repórter.1984
13 de julho

A programação escassa daquele fim de semana conta com apenas duas atrações, e uma delas é o Capital Inicial, no coreto do Centro Comercial Gilberto Salomão. “Depois de mostrar o som made in Brasília em famosos redutos do rock tupiniquim do Sul Maravilha, o Capital, em viagem de retorno, agita a galera hoje.”

1 de outubro

O título do texto é “Rock faz a cabeça do brasiliense”. Logo abaixo, lê-se: “Jovens comparecem em massa aos concertos que se realizam na cidade”. A reportagem do Correio relata que a preferência dos que frequentam esses espetáculos é pelas manifestações que “questionam as preocupações mais urgentes da juventude ou que abordam temas do seu interesse”. E destaca uma performance do grupo Pôr-do-Sol, “que nada fica a dever a muitos que são apontados como os mais importantes representantes do rock made in Brasil”.

1985
13 de fevereiro

“A cada ano, surgem novos grupos e muitos têm tido uma carreira promissora aqui e fora da capital”, destaca o Correio. A matéria apresenta a banda Made in Brasília, formada por quatro músicos “apaixonados por rock”: Marcos Vinícius, Henrique Gonçalves, Vaner Torres e Luizinho Siqueira. O som deles, explica o texto, é uma fusão do rock sessentista com o rock pesado daquela década.

1 de março
A Legião Urbana de Renato Russo lança seu primeiro disco. O fato é alardeado pelo jornal com o título “Toda a fúria do som de Brasília”, que anuncia dois shows na cidade. “Que ninguém vá ao teatro penando em ver um grupo punk, que este estágio já foi ultrapassado.” Sobre a banda, a reportagem define: “Retrata a cidade com a fidelidade de uma Canon e a frieza de um observador intergalático”, e conclui: “Embora muitos conjuntos já estivessem com um trabalho solidificado aqui na cidade, foi a garra das novas bandas de rock que fez com que Brasília passasse a ser reconhecida como berço da mais nova corrente dentro do rock nacional”.

9 de agosto
“O Capital Inicial continua o mesmo de Brasília, só que melhor, com maior domínio musical, com maior depuramento e uma abertura do trabalho em novas direções”, analisa o Correio ao anunciar show da banda na cidade, ao lado dos baianos do Camisa de Vênus.

25 de agosto
A notícia é dada em tom de grande acontecimento: “Vai ser lançado hoje o primeiro elepê independente de bandas de rock de Brasília”. O disco Rumores traz canções de Finis Africae, Escola de Escândalo, Elite Sofisticada e Detrito Federal, com produção de Isnaldo Lacerda. O primeiro grupo é citado como “um dos mais importantes do rock brasiliense”; já o quarto, o “exu punk que baixou no terreiro do rock brasiliense”.

17 de outubro
Na mesma edição em que avisa sobre a estreia do Akneton — “uma das formas musicais que se lança no incêndio cultural na cidade que mais tem avançado no rock brasileiro” — nos palcos de Brasília, o jornal relata que o grupo punk Detrito Federal estava proibido de tocar na capital e em todo o país. Em entrevista ao Correio, integrantes da banda teriam falado mal do trabalho de outros grupos, como o Mel da Terra, o que motivou uma queixa na Ordem dos Músicos, que os puniu por “falta de ética”. Em artigo, o repórter Severino Francisco os defende: “Que ‘ética’ é essa que impede as pessoas de manifestar sua opinião sobre os fatos culturais? Só pode ser a ética da mediocridade”.

1986
16 de março
Reportagem de fôlego sobre a Plebe Rude ocupa a capa do caderno ApArte, com direito a entrevista. “Quase cinco anos depois de iniciados na vertigem sonora do rock, eles agora tomam a pulso os teatros e espaços que ocupam, com a sua música sem tréguas, de um lirismo furioso, entre o protesto e o profético”, define a publicação. “Brasília não é nenhuma utopia: é uma cidade que se desvenda de maneira assustadora no versos e gritos do Plebe Rude”, continua. A trupe havia recém-lançado seu primeiro disco, O concreto já rachou, e o vocalista Philippe Seabra falou ao Correio. “Existem várias bandas de Brasília que já gravaram: Legião, Capital etc. Mas o pessoal das rádios aqui em Brasília não investe nisso. Devia ter uma rádio aqui em Brasília que desse a maior força para as bandas de Brasília. Mas não tem, cara.”

20 de abril
Os punks Paulo César Cascão e Alexandre Podrão são os personagens da matéria. O primeiro estava deixando o posto de baterista da banda Detrito Federal para assumir os vocais, e o texto opina que, “em breve, o dócil rebelde estará se transformando num dos maiores vocalistas do rock brasileiro, radical ou não”. Eles haviam tocado há pouco no programa Mixto Quente, da TV Globo. “A diferença dos radicais paulistas está na grana. Aqui, o pessoal tem um nível social melhor. São mais intelectualizados, já os paulistas são bem rudes. Em Brasília, o clima é de tédio, pessoal mais deprimido”, comparou Cascão. Podrão, ex-Detrito, acabara de fundar a Campo Minado.

16 de junho
A matéria diz que o velho ditado “santo de casa não faz milagre” está sendo desmoralizado pelos roqueiros brasilienses. “Atualmente, qualquer conjunto recém-formado numa das quadras do Plano Piloto, no Lago Sul ou em alguma das satélites consegue reunir grandes plateias”, defende o texto. Para confirmar o sucesso do movimento, o material cita que o então governador José Aparecido recebera roqueiros em seu gabinete e que a Sala Funarte, reduto da MPB, estava abrindo seu palco para o gênero. O projeto Nas Asas do Rock, realizado naquele local, reunira as bandas Liberdade Condicional, Atentado ao Normal, Detrito Federal, Padrão Social, Beta Pictoris, Clínica Geral, Fusão e DC-10.

1987
7 de maio
A coluna Todos os Sons, de Irlam Rocha Lima, destaca que, após gravar seu primeiro “elepê”, a banda afro-brasiliense Obina Shok vai “finalmente sair da hibernação”. A trupe, chamada de “usina sonora”, havia estourado nacionalmente com a música Vida, que vendera 60 mil discos, mas, por medo da fama, preferiu ficar reclusa. Agora, estava retomando os trabalhos.

1988
6 de abril
Recebe grande espaço o lançamento do primeiro disco da banda Arte no Escuro por uma multinacional, “um retrato em preto e branco de um lado de Brasília que a própria cidade procura esquecer — ou esconder; um mergulho na alma ao mesmo tempo atormentada e romântica das pessoas que vivem neste avião”, segundo a reportagem. A voz da vocalista Marielle (ex-Escola de Escândalos) é descrita como grave, doce e desesperada — “há poucas coisas deliciosas assim”.

18 de junho
Logo na capa, uma chamada sobre o show que a Legião Urbana faria aquela noite na cidade. A expectativa é de que 40 mil pessoas irão ao Estádio Mané Garrincha, diz o texto, em “show que promete ser o maior acontecimento musical do ano em Brasília”. A banda não tocava aqui há um ano e meio. O público naquela noite de sábado chegou a 50 mil. Na capa de segunda-feira, dia 20, a manchete é: “Legião Urbana foge e show vira badernaço”. A matéria relata que o abreviamento da apresentação por Russo transformou o acontecimento em um “festival de violência”. Durante o concerto, um fã subiu ao palco e agarrou o vocalista, bombinhas foram jogadas nos integrantes e Renato discutiu com a plateia. O show foi curto — uma dezena de canções —, segundo a matéria, e não teve bis. Os presentes se revoltaram. “Quatrocentas pessoas necessitaram de atendimento médico, 14 ônibus foram apedrejados”, conta a notícia.

1989
9 de janeiro
O projeto Rock Verão é a atração do mítico bar Bom Demais, na 706 Norte. Na abertura da temporada de shows, sobem ao palco as bandas Kratz, Zona, Raimundos e Little Quail and Mad Birds. “Mais de 30 bandas estão inscritas e programadas para as segundas-feiras do Rock Verão II, mostrando que o lado roqueiro de Brasília continua vivo.”

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