Pequena e exuberante Tasmânia, na Austrália

Ilha mágica no sul da Oceania esbanja beleza com parques naturais e vilarejos isolados

Eduardo Vessoni

HOBART – A natureza na Austrália é exibida e capaz de surpreender até o visitante mais viajado, e a Tasmânia é uma das experiências mais impressionantes que se pode ter nessas terras distantes, do outro lado do planeta. O destino localizado a 240 km ao sul do país continental da Oceania é uma espécie de ilha mágica com cenário exuberante, que muitos sonham visitar. Mas são poucos os que desembarcam por aqui (mesmo entre os próprios australianos). E não seria exagero afirmar que o local é um dos mais exclusivos em toda a região.

Caminhos que se ocultam entre árvores de contornos abstratos, trilhas que levam a paisagens que o viajante só descobre onde vai dar após a curva seguinte e animais raros que existem apenas naquelas terras.: este é o cenário mais comum desse destino exótico a apenas 2.700 km da Antártica, mais perto até do que Cairns, no distante norte australiano. Acredita-se que a formação da Tasmânia seja do período Terciário, quando a Antártica se desprendeu do atual território australiano, há 45 milhões de anos. Essa seria uma das hipóteses que justificam o isolamento e o endemismo dessa ilha com 300 km entre as costas norte e sul, e 340 km de leste a oeste.

No menor estado da Austrália, a ordem é contemplar. Por isso não tenha pressa. Trace uma rota com um ponto de partida em cidades maiores como a capital Hobart ou Launceston e uma parada final. Começar a viagem em Launceston e concluí-la em Hobart, fazendo uma espécie de círculo, é uma alternativa para visitar o leste, conhecido por suas praias, e o oeste selvagem da ilha. De resto, apenas fique atento à mão inglesa e deixe as bem sinalizadas estradas indicarem o caminho pela remota ilha.

A alta temporada começa agora em novembro e se estende pelo verão, até março. Mas, seja qual for a época do ano, esteja preparado para mudanças climáticas repentinas. Nessa ilha, todas as estações do ano parecem caber em um mesmo dia. Em apenas uma manhã é possível testemunhar neve, vento, chuvas, sol forte, neblina e sol outra vez para começar, novamente, o ciclo de mudanças. Eis a Tasmânia mostrando seu lado selvagem.

Parques naturais dominam paisagem

Responsável por um dos ares mais puros encontrados em todo o planeta e com apenas 500 mil habitantes, a Tasmânia tem 40% de seu território formado por parques nacionais e reservas. Declarado Patrimônio da Humanidade, o Parque Nacional Cradle Mountain-Lake Saint Claire é um de seu endereços mais emblemáticos. Abriga atrativos naturais como a trilha Dove Lake, cujo percurso de três horas se estende por quase seis quilômetros pelo interior da Floresta Ballroom, contornando o lago que dá nome ao local, e deixa o visitante aventureiro aos pés da Cradle Mountain, no extremo norte do parque.

Essa área de quase 200 mil hectares preservados, situada no setor oeste da ilha, abriga também atrativos de beleza impar como a pequena trilha de 500 metros conhecida como Weindorfer, um caminho de árvores endêmicas e imensos pinheiros milenares que homenageia o austríaco Gustav Weindorfer que, em 1912, comprou do governo as primeiras terras com o intuito de preservar a região e transformá-la em parque nacional.

Na verde e selvagem Tasmânia, não é raro o branco da neve pintar árvores e cabanas na região do Cradle Mountain National Park. Em algumas épocas do ano (e isso pode acontecer em plena primavera), a neve cai incessantemente e transforma a vegetação em uma sequência de caminhos nevados e plantas salpicadas de pontos brancos. O visitante, atônito, vai assistindo àquela mudança improvável antes de se convencer de que esse país é muito mais do que praias de cores paralisantes, ondas perfeitas cobiçadas por surfistas de todo o mundo e dias de sol com temperaturas elevadas. É como estar e não estar, ao mesmo tempo, em território australiano.

Embora selvagem e isolada, a Tasmânia oferece estrutura para todos os níveis de aventureiros, desde os mais inexperientes até os mais arrojados. As trilhas populares são bem sinalizadas e, geralmente, equipadas com passarelas de madeira e corrimãos que facilitam a caminhada, como as que cortam outro parque nacional da ilha, o Franklin-Gordon Wild Rivers.

As águas selvagens são o principal atrativo desse parque de 400 mil hectares formado por florestas tropicais, picos montanhosos e desfiladeiros. O destaque para viajantes com pouca experiência, mas com interesse em cenários selvagens, é a trilha de 20 minutos de nível fácil e que dá acesso a Nelson Falls, quedas d’água com 30 metros que podem ser vistas a partir de uma plataforma de observação. Os caminhos, assim como todos os outros existentes na ilha, são equipados com painéis ilustrativos que informam sobre plantas e árvores em sua extensão.

Outro parque nacional capaz de arrancar o fôlego do visitante é o Mount Field National Park, entre a capital Hobart e o Franklin-Gordon Wild Rivers, onde o cenário segue o mesmo padrão dos parques nacionais da Tasmânia: vida selvagem variada, floresta tropical e boa estrutura para visitantes como áreas de descanso e setores para piquenique. É no interior desse parque, o mais antigo da Tasmânia, que se encontra a trilha em direção a Russel Falls, cujo trajeto plano foi preparado para receber também cadeirantes ou pessoas com dificuldades de locomoção. Esse caminho curto de dez minutos de duração rodeado por samambaias e imensos eucaliptos dá acesso às quedas d’água locais conhecidas como Russel Falls, consideradas uma das mais impressionantes de toda a ilha. Siga a trilha até o final e tire as suas próprias conclusões.

Dali outro circuito pode ser feito em direção a Tall Trees Walk, que cruza a impressionante floresta que abriga algumas das árvores mais altas do planeta. Vale lembrar que amantes de caminhadas encontram em toda o país um excelente circuito de trilhas interligadas que dão acesso a diferentes atrações que podem ser visitadas em um único dia. A Tall Trees Walk, por exemplo, se conecta com outra atração popular do parque, o Lago Dobson.

De praga a espécie ameaçada

Os animais selvagens também são um destaque da Tasmânia, que, certamente, ganhou fama mundial com um dos personagens das animações da Looney Tunes: o Taz. Conhecido como o diabo-da-tasmânia, esse bicho de pequeno porte e com pelos escuros é considerado o maior marsupial carnívoro da ilha e quase entrou em extinção quando 90% de sua população desapareceu por conta de um raro câncer facial genético que o impedia de se alimentar.

Nas últimas décadas, centros de estudo e conservação locais foram responsáveis pelo isolamento e tratamento desse animal endêmico. E esses são os lugares mais recomendados para um garantido encontro com esse bicho de hábitos noturnos que pode ser visto também em florestas e na costa da ilha. Nos arredores do parque Cradle Mountain é possível visitar e alimentar os invocados bichinhos em centros que preservam e estudam os poucos animais ainda existentes em cativeiros da Tasmânia, como o Devils@Cradle.

Mas sua fama nem sempre foi popular. No início da década de 1930, esses animais foram considerados uma praga pelos primeiros colonos europeus de Hobart. A cidade chegou a contar com um sistema de recompensas para aqueles que conseguissem se livrar daqueles “demônios”. As práticas de aprisionamento e até envenenamento foram também umas das causas de seu quase desaparecimento.

Mas não é necessário ter muita sorte para se deparar com outros animais em estado selvagem. Quem se hospeda nas cabanas do interior do parque deve ser surpreendido também pelo pademelon, uma versão em miniatura do clássico canguru australiano; o vombate, animal herbívoro da família dos marsupiais conhecido por se mover lentamente, e o curioso possum, outro marsupial dessas bandas. Todos esses pequenos e diferentes marsupiais típicos da Austrália costumam cruzar o caminho dos visitantes durante a visita e dar mais um toque surreal à viagem à Tasmânia.

Nas cidades: a “galeria de arte” da Tasmânia

Quem viaja pelo interior da Tasmânia não se surpreende apenas em rincões afastados, mas também nos pequenos vilarejos encravados entre montanhas que parecem paralisados diante da geografia selvagem. O setor oeste da ilha concentra o menor número de áreas povoadas de toda a Tasmânia. Cidadezinhas como Strahan e Sheffield seguem a vida em um ritmo tão lento quanto o das nuvens espessas que abraçam picos rochosos de floresta densa.O tempo parece não ter pressa.

Um dos destaques é a pacata Sheffield, uma minúscula cidade a 28 km a oeste de Launceston, no norte da ilha. Mesmo com uma população de apenas mil habitantes, o lugar conseguiu se destacar entre tantas opções naturais e atrair forasteiros amantes das artes plásticas.

Conhecida como a “cidade dos murais”, Sheffield abriga uma variedade de estúdios, antiquários e 50 muros ao ar livre onde foram pintados cenas de momentos históricos da região. O título de “galeria de arte da Tasmânia” não é exagerado e quem tiver tempo para comprovar ainda conta com um tour autoguiado com áudio explicativo oferecido pelo centro de apoio a visitantes. Anualmente, a cidade abriga também o Mural Fest, uma competição em que nove artistas se reúnem no Mural Park para a criação de novos trabalhos de acordo com um tema preestabelecido. Em 2013, o festival será realizado de 31 de março a 6 de abril.

Para quem visita o oeste, de longe o mais impressionante de todos os roteiros da Tasmânia, Strahan é a porta de entrada para essa região mais isolada da ilha. Localizado às margens do Macquaire Harbour, esse pitoresco povoado pesqueiro e exportador de madeira é considerado um dos últimos destinos habitados da região e um dos mais isolados no planeta. Para se ter uma ideia, a Ocean Beach, a 6 km de Strahan, recebe as águas que viajaram, sem nenhum obstáculo, desde a distante Patagônia. Quem já esteve nesse território gelado da América do Sul, entre a Argentina e o Chile, costuma encontrar semelhanças nas vastas paisagens montanhosas de picos nevados e vilarejos encobertos por neblina densa que se veem na Tasmânia.

Serviço

Quando ir

No verão (novembro a março), as temperaturas médias variam de 8°C a 24°C. Os dias mais frios são entre maio e julho, com médias de 2°C a 13°C.

Transporte

As distâncias são grandes e muitas atrações estão em áreas isoladas. A dica é alugar um carro, para quem não se importar em dirigir na mão inglesa, ou contratar os serviços de agências locais.

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