‘Combate ao racismo não se limita a uma sensibilidade momentânea’, diz cientista

Multiartista, pesquisadora e cientista, Zaika dos Santos conversou com O TEMPO sobre a emergência das manifestações antirracistas que se espalharam por todo o mundo desde o assassinato de George Floyd, morto por enforcamento por um policial branco em 25 de maio na cidade de Mineápolis, em Minnesota, nos Estados Unidos.

Filiada à Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) e ao Instituto Sua Ciência, ligada ao 500 Women Scientists e integrante do grupo de pesquisa Laboratório de Poéticas Fronteiriças (LabFront) da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), Zaika se debruça sobre a historicidade do combate ao racismo no Brasil e no mundo para dizer sobre a eclosão das recentes manifestações, que têm provocado discussões globalmente.

A cientista do afrofuturismo, arte-educadora e ativista negra e das culturas soundsystem elabora, na conversa, sobre a urgência de um recorte afrocentrado no combate a estruturas sociais racistas. Para a estudiosa, esse debate não deve partir de uma perspectiva nortecentrada – isto é, deve se inspirar na e refletir a luta do próprio povo negro e não se pautar apenas diante da reação ao racismo em países ricos e culturalmente hegemônicos.

Ela assevera que a luta antirracista não deve ser limitada a uma sensibilidade momentânea e argumenta que pessoas não negras devem incorporar o combate ao racismo ao cotidiano delas.

As iniciativas e os trabalhos de Zaika – que unem arte, ciência, tecnologia, inovação africana e afrodescendente – são compartilhados nas mídias digitais. No Spotify estão disponíveis dois álbuns autorais gravados por ela.

 

 No Instagram, Zaika disponibiliza, no perfil Arte e STEM (@afrofuturism.as), projetos de divulgação científica sobre o Afrofuturismo, tema sobre o qual desenvolve sua terceira pesquisa científica . Já o Nôk é Nagô (@nokenago) tem viés artístico multidisciplinar. Por fim,  atua também como idealizadora e coordenadora do coletivo de música Saltosoundsystem (@saltosoundsystem), em que também são desenvolvidos trabalhos educativos.

1. O assassinato de George Floyd desencadeou, primeiro nos Estados Unidos, uma onda de manifestações antirracistas que que têm sido retratadas como as maiores desde a morte de Martin Luther King Jr. Atos que, depois, foram registrados também em diversos outros países. Como essa mobilização pode impactar a luta contra o racismo no Brasil e em Minas Gerais?

É importante que as pessoas ativem a cognição para entender que a luta contra o racismo em uma perspectiva Afrocentrada. Isto é, a partir de uma cognição que evidencia o combate ao genocídio de Africanos e Afrodescendentes; que efetiva a luta contra o testemunho histórico colonial; que tensiona o mantenimento das estruturas do período escravocrata – que subalternizaram africanos e afrodescententes a partir da desumanização -; que combate a perpetuação de práticas eugênicas; que fortalece as rupturas positivas na estrutura de racialização social imposta pelo universalismo abstrato colonizador; que celebra a veracidade histórica afrocentrada – quebrando as formas hegemônicas histórica e comunicacional -; e que combate o epistemicídio histórico.

O combate ao racismo historicamente é versado por Africanos e Afrodescendente, uma luta que está evidente no mundo há mais de 6.000 anos – e estou datando este lugar, pois, se formos falar sobre Kemet (Terra Negra, o Egito Antigo) chegaremos a Nabta Playa e perceberemos que Stonehenge não é o primeiro sítio de dispositivo arqueoastronômico do mundo. Ou seja, esse debate antecede Martin Luther King Jr. e passa por diversos momentos históricos no mundo. Citarei dois em um recorte: Quilombo dos Palmares, conhecido como Angola Janga evidenciando a historicidade afro-brasileira neste combate, e o movimento Pan- Africano no século XX, cunhado por Henry Sylvester Williams, que veio a influenciar grande parte dos intelectuais negros no Mundo.

Entendendo que Martin Luther King Jr. significa um luto doloroso, e que impacta fortemente a historicidade de movimentações Africanas e Afrodescedentes que o antecedem – assim como a morte do Malcolm X também se cunha neste lugar doloroso -, é sempre importante falar das coexistências históricas no combate ao racismo e suas conexões. O Brasil Colonial esteve diretamente ligado à escravidão forçada de Africanos e Afrodescendentes, afinal, foi um dos últimos países a aderir à política abolicionista. É importante lembrar também que Minas Gerais leva em seu próprio nome os resquícios históricos do período colonial.

Enfim, o impacto da luta contra o racismo no Brasil se dá pela narrativa histórica das revoltas quilombolas e de seus descendentes visto que movimentos – como há Revolta dos Malês, Revoltas das Chibatas, Movimento Negro Unificado (MNU) entre outras potencialidades históricas – são interligados e conectados no testemunho histórico Afrocentrado.

Hoje, a diferença na atualização do combate é uma resposta às atualizações das práticas do racismo.

2. Embora exista uma longa tradição de mobilização contra o racismo no Brasil, protestos contra a violência institucional dirigida a pessoas negras foram, na maioria das vezes, esvaziados, silenciados e até criminalizados. Acredita que o debate mais extenso e global sobre o racismo pode emprestar mais visibilidade para a luta do povo negro no país?

Creio que os movimentos atuais podem fazer com que parte da população brasileira, que invisibiliza as lutas que tem demarcação histórica do movimento negro no país, passe a rever o seu lugar na história. Afinal, nossas lutas afrodescendentes sempre existiram. O racismo, inclusive, não pertence a nós, afrodescendentes, e sim à cognição e à historicidade branca colonialista, eugenista, universalista abstrata e hegemônica que versa a dominação sobre a diversidade.

Visto que a sensibilização de pessoas brancas no Brasil consegue direcionar atenção ao assassinato brutal de George Floyd em Mineápolis, nos Estados Unidos, mas não consegue se sensibilizar e promover antirracismos com práticas efetivas aos genocídios brutais sofridos pela população negra no Brasil (atingindo jovens e crianças), visibiliza-se a necessidade dessa parcela da população rever o seu próprio raciocínio frente às pautas raciais brasileiras – que são muito bem embasadas e ativadas pela população afrodescendente no dimensionamento da coexistência das pautas raciais e confluem com a União Africana (organização internacional que promove a integração entre os países do continente africano nos mais diferentes aspectos), que neste ano pautou o Dia Mundial da África com o tema “Silenciamento da Armas no contexto do Covid-19”. (O movimento negro brasileiro) também teve um papel importante ao encaminhar a carta para a Organização das Nações Unidas (ONU), que, na sequência, aprovou a apuração sobre racismo sistêmico no Mundo.

Portanto, assim como os afro-americanos têm se organizado na luta pelos direitos civis, globalmente grupos, coletivos, movimentos e redes seguem combatendo o genocídio da população africana e afrodescendente em toda diáspora africana.

O que precisa que ser revisto no Brasil é o discurso antirracista, que não pode ser configurado a um momento demarcado como sensibilidade momentânea e é uma pauta cotidiana. Nós, afrodescendentes, sempre estivemos e ainda estamos em luta. O lugar que deve ser revisto não é o nosso.

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