Microfone sem fio, drogas e fama: a vida do locutor Asa Branca

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Documentário mostra trajetória do locutor Asa Branca, que morreu nesta semana aos 57 anos de idade. Caubói inovou ao usar microfone sem fio em rodeios. Microfone sem fio, drogas e fama: a vida do locutor Asa Branca
“Eu sou Asa Branca, nasci no pé de uma serra com meus pais e meus irmãos. Pulei pra dentro da arena, inventei uma nova profissão: narrar, vibrar e ir pra lá com o povão”.
De acordo com o locutor de rodeio Adriano do Vale, ele foi a mudança na locução no rodeio brasileiro.
“Existe antes e depois do Asa Branca”.
“Asa Branca é um profissional inteligente, criativo, polêmico também. Toda pessoa que resolve viver intensamente, isso tem consequências”, disse Emílio Carlos dos Santos, vice-presidente da Festa do Peão de Barretos.
“Eu sinto que eu fui amada. E ele deixou isso muito claro, muitas vezes”, conta a viúva Sandra Maria Asa Branca dos Santos
Ninguém ficava indiferente a Asa Branca, o nome de guerra do locutor de rodeios mais inovador do Brasil. O peão atrevido adorava a arena e detestava qualquer tipo de limite. Para ele, até o fio do microfone era como um cabresto, que o impedia de estar onde ele queria estar realmente, que era lá embaixo na arena. Isso foi até o dia em que ele conheceu o microfone sem fio.
“Aí eu comecei a narrar e o presidente da festa me chamou do lado e falou assim: ô, asa, começa a entrevistar o povo, que eles não acreditam que o microfone fala. Já tinha na ideia, eu falei: vou narrar dentro da arena, vou pular para dentro da arena, vou entrevistar o peão”, relembrou asa branca em entrevista para um documentário.
“Ele teve a criatividade de ver um microfone sem fio e não ficar só naquele quadrado que antigamente ficava no palanque”, explica Adriano do vale, locutor de rodeio.
“Trouxe microfone sem fio dos Estados Unidos, entrava embaixo do cavalo, o cara pulando e ele perto, do boi, e ia assim segura”, afirma o cantor Sergio Reis.
E quando o microfone sem fio deixou de ser novidade, asa branca jogou pro alto e inventou outra: chegar ao evento de helicóptero.
“Imagina uma arena lotada, um cara descendo de helicóptero, um caubói pular no meio da arena ali falando”, relembram Chitãozinho e Xororó.
Filho de fazendeiro falido, que cresceu sem mãe e se frustrou como jogador de futebol e peão, Waldemar Ruy dos santos se redescobriu como animador de rodeios. Ruy virou asa branca.
O sucesso trouxe prestígio, popularidade. O locutor dos eventos do interior foi parar na Globo. Apareceu em especiais de fim de ano, em novelas. Generoso, farrista, fanfarrão… Asa branca se esbaldou na fama. Vivia em festas.
“Nêgo fala: Asa, você não guarda dinheiro? Eu falava: não fui eu que esparramei, por que vou juntar?”, dizia Asa Branca.
Só andava de jatinho e helicóptero fretados. Namorou mulheres famosas.
“Eu lembro que a gente tinha marcado de encontrar num bar na lagoa. Esse homem não foi de cavalo e entrou com cavalo dentro do bar?”, conta Nubia Oliver.
“O Asa era um cara muito bonito, né, as mulheres ovacionavam quando ele chegava”, afirmam Zezé di Camargo & Luciano
Também semeou filhos pelo mundo. Os problemas começaram com as drogas. Os episódios de arruaça e faltas em compromissos minaram a imagem do profissional. No final dos anos noventa, veio o diagnóstico de HIV.
“Nunca usei preservativo, então foi isso o meu mal”, contou Asa Branca em entrevista a um documentário.
Com a carreira em baixa, o locutor viveu outro baque. O homem que carregava o nome de ave no apelido pegou neurocriptococose, a gravíssima doença do pombo. Mas a ajuda veio, e Asa Branca sobreviveu. Poucos anos depois, descobriu um câncer na boca:
“É mais um bicho cabeludo pra enfrentar. Esse é com arpão e tudo”
O tratamento pesado o fez perder vinte quilos, mas a doença foi controlada. O sofrimento no hospital fez o peão repensar sua relação com os animais:
“E eu esporeei boi, então eu estou pagando o que eu fiz. Se é pecado, se eu fiz mal as bois, se eu maltratei, eu peço perdão a Deus.”
“Ele se arrependeu. Disse que maltratou muitos animais. Lá atrás, no rodeio, tinha maus tratos, só que hoje não, não tem. Tem uma fiscalização, tem leis”, explica a viúva
Enfraquecido, asa branca buscou novos rumos.com a ajuda de amigos famosos, tentou carreira na música. Mas o câncer, que voltou implacável no ano passado, tirou de cena a lenda das arenas.
Na pequena Turiúba, no interior paulista, fundada pelo bisavô do locutor, velhos peões carregaram nesta semana o caixão de Asa Branca.
Sandra – empresária, esposa, companheira dos últimos anos de vida – se emociona diante do túmulo onde o locutor pediu para ser enterrado, ao lado dos pais e do irmão:
“Pra sempre. Pra sempre. Então ele vai estar no coração de todos”
A voz de asa branca despertou o brasil urbano para o fenômeno do rodeio. Hoje, sua memória segue viva na vibração de jovens locutores.

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