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‘A gente não tem mais para onde correr’, diz brasileira professora de dança que mora em Caracas

 

 

Simone Nevado dá aulas de samba e mora na Venezuela há 40 anos.Ela conta como é enfrentar a hiperinflação que atinge o país, atravessar para o Brasil por rotas clandestinas e o clima ‘de guerra’ em Caracas. Falta de comida, água, alimentos, remédios. Pessoas gritando, carros e ambulâncias pelas ruas até tarde da noite que não a deixam dormir, bloqueios de ruas. Esse é o cenário que a brasileira Simone Nevado, de 66 anos, descreve no bairro de Los Ruices, em Caracas, na Venezuela, cidade onde mora há 40 anos e dá aulas de dança — de samba, mais especificamente.
“É uma guerra, a gente não tem mais para onde correr. Nós já estamos com água no pescoço. Nos últimos dois, três dias, foi terrível. Não pude dormir de noite, de madrugada. Era carro, ambulância passando, pessoas gritando, apitando”, narra a brasileira.
Na última aula particular que Simone deu, na casa dela, sete alunas apareceram. Normalmente, são dez. Cada uma paga 10 dólares (cerca de R$ 40) por um pacote de quatro aulas de duas horas, todos os sábados. Além das aulas particulares, ela também ensina em um instituto de cultura brasileira em Caracas, mas, por causa da crise, não recebe nada por isso.
A situação financeira é difícil. Com a hiperinflação que atinge a Venezuela, um dólar equivale, agora, a cerca de 5,2 mil bolívares, segundo o câmbio oficial.
“O que você consegue [de dinheiro] é pra comer. É tudo muito, muito, MUITO caro. O pão daqui, um pãozinho redondo, custa 1,5 mil bolívares. Em Boa Vista, uma cesta básica custa R$ 60, R$ 45 — dá pra comprar frango, carne, ovo, verduras, frutas. Meu marido comprou quase isso aqui [em reais] e não trouxe 1kg de carne, frango, peixe, nem nada enlatado”, relatou.
A cada dois meses, ela embarca de Caracas rumo a Boa Vista para buscar dinheiro no Brasil e comprar comida. A viagem, que dura mais de um dia, ficou perigosa. No final de março, conta Simone, ela precisou usar uma “trocha” — como são conhecidas as rotas clandestinas — para conseguir atravessar a fronteira entre Brasil e Venezuela por Pacaraima (RR), que está fechada desde fevereiro.

“Caminhei quatro horas na montanha, por cima dos rios, pelos caminhos cheios de precipícios, naqueles paus que eles colocaram em cima do rio. No meio do rio, o pau balança, se você não é bailarina você não passa”, diz Simone, que calcula conseguir voltar do Brasil, a cada viagem, com R$ 200 ou R$ 300.
Venezuelanos vasculham lixão em busca de comida e coisas para revender na fronteira do Brasil
Por causa da crise no país, ela precisa levar de tudo quando retorna: desde café e açúcar a remédios. Simone afirma que é frequente que militares, ao longo da rota, tomem parte do que os viajantes carregam, seja dinheiro ou comida. O que consegue trazer de volta a Caracas ela divide com quem conhece.
A comida que chega à Venezuela, de países como México e Colômbia, segundo conta Simone, é de baixa qualidade. O leite dá dor de barriga, afirma. O cenário, diz, é de sofrimento.
“O pai da minha nora tá com a pressão alta, meu marido, minha vizinha, que só vive com dor de cabeça. Tem gente que só bebe café quando vem aqui em casa. Você tem que vir aqui e sentir na pele o que a gente está sentindo aqui. Meu Deus do céu, eu não posso acreditar, é muito sofrimento”, narra.
‘Se eu não gostasse daqui, já tinha ido embora’

Apesar da situação — e até da insistência de parentes e amigos no Brasil — Simone diz que não tem planos de voltar, porque, no Brasil, teria que começar uma vida do zero.
Antes de chegar à Venezuela, em 1979, entretanto, viveu algumas emoções em solo brasileiro. Ela conta que trabalhou com Chacrinha na década de 70, substituindo a Índia Potira, e saiu em uma turnê pela Europa, Ilhas Madeira e Canárias, e na própria Venezuela. Também relata que passou por Angola no período da guerra civil que atingiu o país.

“Estive na guerra em Angola, e agora guerra na Venezuela. É mole ou quer mais? Nós saímos de Angola, de Luanda, debaixo de tiro, o avião saiu no escuro”, narra.
Simone Nevado é, na verdade, o nome artístico de Creuza Bandeira de Oliveira, nascida em Guajará-Mirim, Rondônia, na fronteira com a Bolívia, em 21 de março de 1953. Ela conta que conheceu o marido, Felipe, venezuelano, no Rio de Janeiro. Como, na época, o cruzeiro brasileiro “não valia nada”, resolveu partir para a Venezuela — e nunca mais saiu de lá. Teve três filhos, com dupla nacionalidade. Mesmo assim, não tem passaporte do país.
“Aqui estou lutando. O clima daqui é ótimo. Aqui da minha casa, em Caracas, tem uma vista linda, para as montanhas. Gosto da Venezuela. Se não gostasse daqui, já tinha ido embora. Mas sou brasileira, não quero ser venezuelana. Nunca”, afirma.

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