Acesso precoce a pornô online frustra vida sexual

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Pornografia não é propriamente um assunto novo. Revistas, fitas cassete e, depois, DVDs já vendem conteúdo explícito há décadas. O que mudou é que, hoje, ninguém precisa mais ir até uma banca ou às quase extintas locadoras: basta um dispositivo com conexão à internet para qualquer um – inclusive crianças e adolescentes – acessar um extenso universo de sites que distribuem produtos do gênero gratuitamente.

Motivo de preocupação para pais, educadores e especialistas, a exposição a material impróprio tem ocorrido de forma cada vez mais precoce: estudo do pesquisador Pablo Gómez, da Universidade do Uruguai, aponta que, em Montevidéu, 13,6% das crianças entre 4 e 10 anos já tiveram contato com conteúdo afim – outras pesquisas feitas em todo o mundo apontam tendência similar.

Detalhe: muitos desses jovens, carentes de uma educação sexual mais efetiva, acessam esse tipo de conteúdo no afã de “saber como a coisa funciona e aprender” – ou seja, de se educarem sexualmente. Portanto, baseiam-se em uma noção deturpada, que pode levar à frustração, à compulsão pelo consumo de conteúdo adulto e à normalização da violência, como apontam alguns estudos.

Há relatos de meninas que acreditam ter algum problema por não chegarem ao orgasmo vaginal – onipresente nos vídeos pornôs, é alcançado apenas por cerca de 18% das mulheres, segundo publicação do periódico “The Journal of Sex and Marital Therapy”, de 2017. Já os meninos, por não terem um desempenho que dure mais de uma hora – enquanto a duração média de uma relação sexual fica entre 5 e 10 minutos, sendo considerada até indesejável quando excede 20 minutos, segundo estudo da Universidade de New Brunswick, de 2014.

Hoje com 31 anos, Lúcio André*, investidor na Bolsa de Valores, passou a consumir revistas de conteúdo sexual explícito aos 9. Na época, recorria a amigos para ter acesso, ainda que esporadicamente. Sua primeira relação sexual, ele teve aos 16, quando já consumia vídeos – e acreditava aprender com eles. A experiência real, porém, foi um choque. “Nada daquilo que eu via ou que pensava que ia ser. Imagino que deve ter sido péssimo para ela também, pois cheguei pensando que sabia de tudo. Não estava disposto a aprender, a agradar”, reconhece. Após o episódio, e já com o advento dos computadores domésticos, ficaria dois anos sem se relacionar com outra garota – preferia conteúdo pornográfico, que chegava via links em seu e-mail.

“É preciso entender que aquilo é exagero. É como imaginar que dá para dirigir como o Vin Diesel (na franquia ‘Velozes e Furiosos’)”, adverte ele aos adolescentes masculinos – grupo que mais consome conteúdo pornográfico e com maior frequência: 58,8% admitem acessar material explícito uma ou mais vezes por semana, contra 20,3% das meninas uruguaias, de acordo com a pesquisa empreendida por Gómez – e que foi apresentada no “II Simpósio Internacional Subjetividade e Cultura Digital: Saber, Criação e Virtualidade”, em Belo Horizonte, no início de maio.

Efeitos danosos. Há, ainda, poucos estudos sobre os efeitos dessa hiperexposição a estímulos sexualizados. Mas, para a psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello, é evidente que “a introdução à sexualidade desta forma torna-se extremamente perigosa, trazendo consequências desastrosas”, afirma. “Em primeiro lugar, (causa) a erotização precoce nas meninas e a desresponsabilização sobre o exercício da sexualidade nos meninos, além da banalização da violência para ambos os gêneros. Em segundo, a idealização de uma performance cinematográfica e ilusória em relação à qual a realidade estará sempre aquém, levando a uma frustração que pode comprometer de forma definitiva a vida sexual na idade adulta”, diz.

Um dos efeitos mais danosos, aponta a estudiosa, é “a exposição desses jovens à violência, exploração sexual e à “sextorsão” (prática em que crianças e adolescentes são chantageadas por adultos para produzirem seus próprios vídeos)”, avalia.

“Além disso, não podemos deixar de considerar que esse acesso fácil a estímulos prazerosos leva facilmente à compulsão pela pornografia, cada vez mais presente em todas as faixas etárias, mas que é particularmente perigosa entre os mais jovens”, completa Gilda.

Problema esse que é motivo de luta cotidiana de José Lucas*, 21. “Eu consumo pornografia desde a infância, quando descobri o vídeo que ficava em cima do guarda-roupa dos meus pais, e eu era ‘instigado’ pela própria proibição e pela falta de diálogo. Depois, veio a internet, justamente na adolescência, fase de maturação sexual mais intensa. E tudo muito obviamente normatizado. Muito normal um garoto consumir pornografia, ser estimulado e incentivado à prática sexual heteronormativa. Veio, então, o início da fase adulta, relações começaram e acabaram, contextos mudaram… E o vício continuou presente”, revela o estudante de psicologia.

Hoje em um relacionamento amoroso, Lucas conta com a cumplicidade de sua parceira e se apoia em sessões de terapia para lutar contra o vício. Além disso, se a internet foi motor de sua compulsão por muito tempo, é em um grupo no Facebook que ele fez o relato, tendo sido apoiado por outros em situação similar. É também à web que André recorrer para propor a si mesmo reflexões. Ele cita como exemplo o vídeos da Youtuber Julia Tolezano, a Jout Jout, que trazem reflexões sobre sexualidade.

Caminho da educação. Em concordância com 54% dos brasileiros, segundo pesquisa do Datafolha de janeiro deste ano, Gilda é ferrenha defensora da educação sexual em sala de aula. Todavia, ela critica enfaticamente o que considera um atraso na abordagem do tema. “Se não houver orientação, a indústria pornográfica ocupará esse lugar”, diz.

Opinião que é compartilhada por Márcia Stengel, professora de pós-graduação do programa de psicologia da PUC Minas. “A educação precisa avançar para além do aspecto biológico. Precisamos formar pessoas capazes de tomar decisões sobre seus corpos e conhecer os limites do outro, isso também é sobre a sexualidade”, avalia.

Tanto Gilda quanto Márcia tratam como equivocada a ideia de que a educação sexual pode provocar “a erotização da infância”. “Há vários estudos, principalmente na Inglaterra, mostrando que a discussão sobre sexo e gênero na escola aumenta a proteção contra abusos e exploração sexual”, defende a psiquiatra. Nesse sentido, vale registrar que, no Brasil, 70% dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes (que somaram 184.524 ocorrências entre 2011 e 2017) aconteceram dentro das casas das vítimas, sendo que 37% dos abusadores tinham vínculos familiares com elas. Os dados são do Ministério da Saúde.

Para as estudiosas, aliás, nem sequer a pornografia deve ser tabu quando se fala em educação sexual formal. “Acredito que o jovem que é iniciado por uma formação sexual clara e natural esteja também sendo preparado para ter crítica em relação à pornografia, cujo risco deve, sim, ser abordado pelos pais e em sala de aula, pois o acesso a ela, pornografia, é uma realidade inexorável”, argui Gilda.

E para além das salas de aula, a casa deve ser um ambiente confortável e acolhedor para esses jovens. “Abrir espaço é a melhor receita: em casa ou na escola, tem que haver conversa. Não dá pra adotar a política do avestruz e fingir que não está acontecendo. A proibição fascina. Então, o caminho não é reprimir, é orientar”, aconselha Márcia.

Falta orientação de pais e docentes

“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à educação, à dignidade, ao respeito, à liberdade…”. Mesmo que boa parte da população não saiba repetir palavra por palavra tal qual dita o Artigo 227 da Constituição Federal de 1988, é sensível que há um senso de responsabilidade comum sobre a infância e a adolescência. O que não significa que tais deveres tenham se feito cumprir. Algo que ocorre, muitas vezes, a pretexto de uma equivocada ideia de proteção.

Com receio de provocar uma “precoce erotização”, muitos pais evitam abrir canais de diálogo e falar sobre sexualidade com os filhos. Além disso, nos últimos anos, o país vem discutindo se a escola é o melhor lugar para tratar o tema, sob o argumento de uma suposta imposição de “ideologia de gênero”. Polêmicas do tipo impõem ainda mais tabus à educação sexual no país, que, diga-se, está na lanterninha entre os vizinhos quando o assunto é a introdução do tema no currículo educacional, conforme estudo da Federação Internacional de Planejamento Familiar.

Ocorre que, sem encontrar ambiente propício para falar do tema em casa ou nas escolas, crianças e adolescentes, claro, vão em busca de outras fontes – que podem ser menos idôneas – para sanar suas dúvidas. A essa altura, vale lembrar que, de acordo com a Pesquisa TIC Kids Online, de 2018, 24,7 milhões de brasileiros entre 9 e 17 anos têm acesso à internet. Trata-se de um contingente que corresponde a 85% da população nessa faixa etária que está permanentemente a um clique de encontrar uma vastidão de informações sobre a sexualidade na web – o que inclui farta oferta de material pornográfico.

E é bom frisar aos pais que, sim, é muito provável que seus filhos consumam pornografia. É o que explicita o estudo coordenado pelo pesquisador Pablo Gómez, da Universidade da República do Uruguai. Investigando hábitos de jovens moradores de Montevidéu, ele constatou que 66,3% deles já haviam visto cenas de práticas sexuais explícitas, contra 18,3% que disseram nunca ter visto – o restante preferiu não responder. Em média, é aos 13 anos que a maioria tem o primeiro contato com esse tipo de conteúdo – sendo 4 a idade mais precoce e 17 a mais tardia.

A pesquisa também anotou as quatro principais fontes para esses jovens. “Amigos pessoais, buscas na internet, conhecidos em redes sociais e outras redes, incluindo o YouTube”, expõe Gómez. Por outro lado, 70% deles nunca ou quase nunca “receberam orientações de docentes no centro educativo, em oficinas de sexualidade, de profissionais da saúde ou de algum adulto da família”. Resumo: “Eles valorizam as mensagens dos emissores tradicionais, mas, ao mesmo tempo, são esses os que menos enviam essas mensagens”, conclui o uruguaio.

Fenômeno Global

Embora não exista pesquisa do tipo no Brasil, tais dados coincidem com outros levantamentos feitos ao redor do mundo – como o da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, que também constatou que, em média, a primeira exposição à pornografia acontece aos 13 anos.

Trata-se, afinal, de um fenômeno global, como examina Márcia Stengel, professora de pós-graduação do programa de psicologia da PUC Minas: “Antes, o acesso a esse tipo de material existia, mas era muito mais trabalhoso. Agora, é muito acessível. E isso muda comportamentos. Estamos tendo notícias de que esse acesso tem se dado desde muito cedo, o que é perigoso”.

Vale dizer que a exposição a material impróprio pode até mesmo ser acidental. Pesquisa do ano passado da GuardChild identificou que 70% dos ingleses entre 7 e 17 anos encontraram pornografia enquanto navegavam na web sem buscar por esse conteúdo.

Tema tabu pode levar ao silêncio

A psiquiatra e psicanalista Gilda Paoliello entende que é exatamente a pouca abertura e o despreparo dos pais, bem como a ausência de um melhor suporte nas escolas, que faz com que muitos jovens sejam “levados a se ancorarem no consumo da pornografia virtual como forma de iniciação sexual”. E acrescenta que o fato de tratar-se de um tema tabu pode levar a um perigoso silenciamento.

“Um colega relatou, em um congresso, a história de uma menina de 12 anos que apresentava mudanças de comportamento, tornando-se irritada e agressiva, chorando com frequência e isolando-se”, lembra. Depois de muito questionada pela mãe, a garota revelou que estava sendo chantageada por uma pessoa que ameaçava postar, no Facebook, uma foto dela nua, caso não fizesse tudo que fosse ordenado.

“Já há algum tempo, ela vinha conversando com alguém que se apresentou como uma menina de 13 anos, que lhe enviava fotos íntimas. Por cumplicidade, ela também enviou, e o inferno começou”, conta Gilda.

Casos como esse, de adultos que usam perfis falsos para se aproximarem de crianças e adolescentes com intenções perversas, são cada vez mais comuns, lembra ela. “E só podem ser evitados com orientação e diálogo”, diz. Como essa é uma prática clandestina, “os adolescentes procuram ocultar as consequências, por vergonha e medo de punição”. E os pais, muitas vezes, custam a perceber as dificuldades dos filhos. “Em outras, quando percebem, negam, por não saberem como abordar”, avalia.

Na mesma medida, as escolas devem se preparar para lidar com episódios afins. Na última quarta-feira (22), por exemplo, a psicóloga Luciana Tavares atendia um caso similar em um colégio da cidade. “Fica evidente que a gente precisa trazer esses temas para as salas de aula”, defende. Em consonância com outros especialistas, ela acredita que é preciso entender a educação sexual de uma forma ampliada: embora importante, a perspectiva biológica apenas não basta.

“É necessário, sim, alertar quanto às doenças sexualmente transmissíveis, falar da gestação, das mudanças corporais que vêm na puberdade, dos métodos contraceptivos”, observa. “Mas é preciso também ensinar noções do que é intimidade, do que é consentimento, de sexismo e de gênero… Até mesmo a baixa autoestima entra nesse campo da sexualidade”, avalia.

Estudantes constroem espaço de conversa e quebram tabu

Sem direção. No Brasil, não há diretrizes claras para a educação sexual. A Base Comum Curricular apenas recomenda que o tema seja discutido a partir do oitavo ano do ensino fundamental, de forma transversal.

Delicado. Além de prestar atendimento em clínica, a psicóloga Luciana Tavares faz parte do quadro de funcionários da Escola da Serra. Ela reconhece que, embora seja parte da natureza humana, a sexualidade segue cercada de tabus.

Ouvidos atentos. Mesmo sem um programa específico para o tema, ela avalia como bem-sucedido o cuidado de manter “ouvidos atentos às conversas nos corredores, às falas dos alunos, dos grupos, ao que as famílias trazem”. É a partir dessa matéria-prima que busca propor reflexões e, se um assunto começa a aparecer demais, são feitas intervenções no colégio.

Com cuidado. A atenção acompanhada por ações efetivas é uma forma de debater esses assuntos de forma cuidadosa, “para que não procurem informações em fontes que abordem esse o tema de forma equivocada ou até violenta”.

Movimento espontâneo. Luciana expõe que surgiu de uma inquietação das próprias alunas adolescentes uma iniciativa que tem colocado a sexualidade em foco. As meninas criaram a Roda das Minas, espaço onde discutem temas variados e por onde já se falou, por exemplo, sobre a relação e o respeito delas com seus corpos, a importância de se amar e sobre como observar se uma relação é ou não abusiva.

Ir além. “Claro que trazemos o conteúdo tradicional em biologia. Mas, com a iniciativa, a escola encontrou uma forma de avançar ainda mais”. Afinal, “a sexualidade não se resume ao ato sexual. É um campo muito mais amplo, que diz da sua relação com o outro e consigo mesmo”.

Ação replicada. Inspirados pela Roda das Minas, agora são eles que buscam construir um espaço seguro e acolhedor para falar das suas questões. “Os meninos também querem falar de desafios que enfrentam, de como se relacionam. A sexualidade é um tema de todos”, diz.

Dicas

Lembrando que é fundamental ter não apenas uma conversa única, mas um canal de diálogo com os filhos, a psiquiatra Gilda Paoliello deixa algumas dicas para os pais.

Abrir diálogo. Uma boa forma de se colocar próximo dos filhos nesse sentido é fazer leituras ou assistir juntos a filmes e a séries dirigidas a crianças e adolescentes que abordem o tema da iniciação sexual.

Desde novinho. Para as crianças a partir de 4 anos há, por exemplo, o livro “Pipo e Fifi”, da mestre em educação Caroline Arcari, sobre prevenção da violência sexual.

Séries. Para os adolescentes, a produção “Sex Education”, da Netflix, tem sido bem avaliada. A trama mostra que ninguém tem uma vida 100% perfeita e está tudo bem assim. Todos os personagens mostram suas dificuldades e problemas, permitindo ao adolescente se identificar – o que facilita a conversa sobre suas próprias dificuldades.
*Nomes fictícios

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